segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

AFINAL OS EXTRATERRESTRES EXISTEM



O texto que se segue foi escrito durante a minha actividade como jornalista e director da Revista “Chamusca Nova” e publicado no seu editorial de Novembro de 1997.

        Passados 16 anos, continuo a pensar da mesma forma: A MENSAGEM E OS SENTIMENTOS DO NATAL DEVIAM SER PRATICADOS TODOS OS DIAS! COM MAIS AMIZADE, SOLIDARIEDADE E AMOR!




domingo, 15 de dezembro de 2013

VIVE!

Disseste-me que a vida é tão veloz,
quanto uma bala a ferir o tempo
e a atingir o coração.

Que sonhavas tornar-te um espírito
e num disparo de asas
defender-te do medo
com as penas,
leves,
da ilusão.

E vivias a fugir
como uma borboleta do bico do pássaro,
um pardal das garras do milhafre,
uma águia da espingarda do caçador,
porque as asas são um voo inútil
no perigoso inferno do céu.

Talvez se quisesses ser apenas um homem,
com o coração pesado de Amor,
a terra te fosse mais leve.
É que apesar da morte das lágrimas,
podemos sempre ter esperança
no nascimento feliz de um sorriso
ou do embrião da felicidade.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

ESPANTALHO

«O amor só atrapalha!»
Gritaste-me com os olhos
arrancados de lágrimas.
E eu fiquei ali,
especado e calado,
como um espantalho
na paisagem fria da cozinha,
espantado pelo teu bater
de asas desesperado
e pelo meu coração de palha
morto no peito.

Podia ser humano
e dizer que te amava,
ou que já não,
usando o consolo da mentira
ou o tiro mortal da verdade.
Mas não sabia o que dizer-te,
tão pouco sabia dizer-te o que sentia.

Estava ali vestindo de homem
os sentimentos empalhados,
como um mero espantalho
onde apenas os pássaros
pousam a alma,
num silêncio cruel,
 de bico quebrado
e sem um pio de amor.

sábado, 30 de novembro de 2013

UMA BREVE VIAGEM AO LONGO DO AMOR


 Francisca gostava imenso de estender o seu corpo ao longo do sofá e deitar a cabeça no colo de Fernando. Nem sequer precisava pedir-lhe, pois ele conhecia perfeitamente aquele jeito manhoso da mulher e, acto contínuo, estendia as mãos para a sua cabeleira à mercê das carícias e, com as unhas, traçava-lhe carreiros entre os cabelos, alisando-lhe a pele, num afago tão sensível e de prazer tão profundo, que ambos se arrepiavam com o poder inebriante de um simples gesto de ternura.
- As tuas mãos são uma delícia meu amor. Nunca deixes de me pentear com carícias - dizia-lhe ela.
- Nunca deixarei de o fazer. Os teus cabelos são tão macios e leves que poderei ficar aqui toda a vida, sem me cansar, de olhos fechados, a imaginar que penteio ervas ou aliso areia, com a polpa sensível dos dedos tacteando a emoção.
Eles não eram piegas, hipócritas, fingidos ou banais. Apenas se amavam. Somente diziam o que sentiam. E a verdade contém toda a razão. Não há nada de mais puro e emocional do que a sinceridade.
Já tinham comemorado as bodas de prata. Caminhavam para os cinquenta anos e o seu espírito, a sua atracção e o seu Amor eram, sem sombra de dúvida, na sua juventude e frescura, o mesmo daqueles jovens que há cerca de trinta anos, num simples fogo-de-vista, se apaixonaram no interior de um comboio Regional que fazia a viagem entre Lisboa e o Entroncamento.
Fernando lembra-se perfeitamente daquele dia no final de um mês de Outubro ainda quente. Do vestido de meia manga e comprido que caía um pouco acima dos tornozelos de Francisca, plantado de flores amarelas, lilases e vermelhas, com os quatro botões azuis do peitilho abertos, deixando antever a pele branca e sensual dos seios. Recorda-se exactamente do rosto dela, simples, tranquilo e bonito de camponesa, a sobressair do tecido daquele campo de pétalas, sem um assomo de pintura, apenas com um tom levemente bronzeado, protegido por uma longa esteva de cabelos escuros.
Como é que poderia ter ficado indiferente à aparição daquela mulher? Era um jovem. Só de olhá-la, a sua cabeça mergulhou de pronto na ilusão. O seu sexo distendeu-se ante a imaginação daquele corpo nu e de poder tocá-lo suavemente, como quem contempla um sonho e tem medo que ao acordar ele se desvaneça de repente, para sempre.
Francisca também jamais se esqueceu do jovem alto. De jeans justos, moldando umas pernas fortes e perfeitas. Da t-shirt vermelha vincando o poder dos seus peitorais. Dos braços musculados e cabeludos inspirando-lhe o desejo do toque. Do desejo de afagar o seu rosto por barbear e desmanchar os caracóis do seu cabelo espesso e amarelo como palha.
Naquele tempo já distante no passado, nem no trilho mais profundo dos seus sentidos eles imaginavam que davam início à mais longa, bela e infinita viagem na carruagem do AMOR.



domingo, 17 de novembro de 2013

QUEM ME DERA MEU AMOR

QUEM ME DERA MEU AMOR

Sentei-me à cabeceira da cama,
como um manequim
olhando através da montra da vida,
o tempo passar sobre os teus ombros nus
vestidos com a saliva
dos beijos adormecidos.

Com um cajado
de sombras e silêncio
seguro na ternura protectora do espírito,
guardando o rebanho
dos teus sonhos,
pensava:

Quem me dera meu Amor
que a chama do sangue
ardesse em labaredas eternas,
no fogo posto
do nosso desejo selvagem.

Quem me dera meu Amor
que o relógio terrível
que nos controla o dia-a-dia
e nos faz perder
a hora certa dos afectos
avariasse neste preciso momento
e ficássemos felizes para sempre,
apenas o coração batendo
no repique da paixão.
                                            Chamusca, 31/10/2013

terça-feira, 5 de novembro de 2013

TEMPO DE SOBREVIVER


Terça-feira, 5 de Novembro de 2013

"Números", de Carlos Santos Oliveira


Números

Os dias são tão repetitivos quanto a morte.

Número a número
as instituições somam algarismos,
tentando acertar com o quociente da vida
e ficam prenhas da dor,
de todas as crianças mortas,
pelas violações,
pelos maus-tratos,
pelo abandono,
pela fome,
pelo tiro à queima-roupa do ódio.

Número a número
o tribunal tenta subtrair da morte
os nascimentos errados,
resultados de uma matemática cruel,
onde o álcool,
a droga,
o instinto sexual
e a ausência de amor,
são valores superiores à raiz quadrada da vida.

Número a número
estas crianças sem sorte
vão subindo nos elevadores dos gráficos estatísticos
e descendo na hipotenusa da condição humana.

Número a número
se fazem as contas às tristezas,
sentimentos e emoções,
e vão aumentando nas crianças
a raiva,
a revolta,
a solidão,
o desespero,
valores que se vão multiplicando
na calculadora das suas consciências.

Número a número
estas crianças aprendem a tabuada da sobrevivência
e contam dedo a dedo
o muito pouco que são e o que têm
e os resultados são muito inferiores
aos das outras crianças.

Um a um
sentem-se apenas números
no balancete final
de uma sociedade sem valores.

in Redes (ZainaEditores, 2009)


Carlos Santos Oliveira nasceu na Chamusca (Ribatejo), onde durante alguns anos exerceu a profissão de jornalista. Desenvolveu ainda actividades como animador de rádio e actor. Viveu no Brasil, onde frequentou o curso de Línguas e Literatura Moderna e foi membro do Centro de Imigrantes Portugueses que realizava eventos de divulgação da cultura portuguesa. Bacharel em Comunicação, foi professor nos Açores e é actualmente oficial de justiça. Tem inúmeros textos publicados em vários jornais e alguns dos seus poemas fazem parte de colectâneas de poesia. Em 2008 publicou o romance É Tão Fácil Morrer, em 2009 o livro de poesia Redes e o livro de relatos Sentenças da Vida. No ano de 2010 publicou o livro infanto-juvenil A Lição do Rinoceronte, em 2011 o livro de estórias Os Filhos Não São Maus, em 2012 o livro O Peso das Gordas, em 2013 o livro infanto-juvenil Um Menino Feliz na Chamusca e em 2014 o livro/caderno cultural de poesia "No Sangue Corre-me o Tejo".

Esta página foi retirada do blogue tempoderecordar-edmartinho.blogspot.pt do Ilustre Cientista Português Eduardo João Martinho. Uma referência também a nível Mundial no que se refere ao desenvolvimento na área da Energia Nuclear. Este Homem teve ainda oportunidade de privar com o grande poeta Português António Gedeão e é referido pelo mesmo no seu livro de memórias. Por todo este manancial científico, social e cultural, ter um poema meu escolhido e publicado pelo Dr. Eduardo João Martinho, no seu blogue, é uma honra e um orgulho que agradeço com um abraço franco e SOLIDÁRIO. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

NÃO ENGANES O AMOR

NÃO ENGANES O AMOR

De que serve o teu corpo
nu e branco de lã
pintado sobre os lençóis,
como uma ovelha
acordando entre a manta 
de ervas húmidas
e verdejantes da manhã,
espreguiçando-se num quadro belo e artístico
mas de uma natureza morta sem sentimentos?

Não enganes o Amor
com a suculência madura dos teus seios,
o cheiro da tua pele
inebriada pela fragrância do desejo,
a lareira quente do teu sexo
onde arde a sedução.

Abre-te com carinho,
com os gestos simples
de quem despe o coração
e deita a alma das palavras
sobre o peito daquele que te ama.

Ele quer ficar contigo,
com a tua verdade humana,
e não com a boneca mecânica
programada para fabricar a ilusão.

Não ouses enganá-lo
com a cegueira do prazer,
porque o Amor é generoso
e é tão humilde e crente,
que a tua reles mentira
pode matá-lo de paixão.

                                            Chamusca, 30/10/2013


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A MORTE DA CHIQUINHA

Excerto do romance inédito "Brasil, Velório dos Sonhos"

A MORTE DA CHIQUINHA

Rio de Janeiro (1988)

Circulámos pela Avenida Rio Branco e entrámos na Avenida Beira Mar. Quando chegámos às imediações do Bairro da Glória o sargento começou a abrandar o veículo. Àquela hora, cerca da uma da manhã, naquele local o movimento do trânsito era mais concentrado. Alguns travestis, como pelicanos, levantavam as saias mostrando as suas pernas enormes, calçadas por saltos altíssimos, enquanto outros expunham a silicone perfeita dos seios e das nádegas, tentando corromper de desejo a avenida.
Do nosso carro acercou-se uma morena que debitou o preço dos seus serviços. O sargento pediu-lhe delicadamente para entrar. Com um sorriso de larga satisfação ela sentou-se no banco de trás. Pelo canto do olho vi-a abrir a pequena mala e passar o batom pelos lábios, num derradeiro e vaidoso retoque de feminilidade.
É claro que fiquei surpreendido, pois não esperava que um sargento da polícia, um suposto macho nas suas atitudes, e um machão nas suas convicções, pudesse alugar os serviços de um travesti para satisfazer os seus desejos excêntricos de sexo. Mas eu era um convidado e como tal não tinha direito a opiniões, razão pela qual fiquei tolhido pela incerteza do que iria suceder, pois esperava não me ver envolvido com aquela prostituta, não só por não ter o menor resquício de desejo por tal personagem, como por estar de sexo morto para qualquer exibição sexual, dadas as decepções sofridas na minha vida e que praticamente me haviam tornado um abstémio convicto.
O sargento Anderson guiou-nos até ao Aterro do Flamengo. Descemos do carro e, em silêncio, atravessámos os jardins com a cadência das vagas do mar inundando-nos os sentidos, numa agradável harmonia da espuma dedilhando a areia.
O sargento perguntou o nome à nossa acompanhante. Ela disse chamar-se Francisca, mas que não tinha nada a opor se a tratássemos de Chiquinha. Aliás, até gostava mais que assim fosse. Perguntou-lhe também a razão pela qual se tornara travesti, ao que ela respondeu que desde miúdo sempre sentira atracção por homens. Que nunca tivera relações sexuais senão com machos, e que sempre desejara ter um corpo de mulher onde acolhesse a mentalidade feminina que possuía. Por último, ele perguntou-lhe se era coragem ou estupidez o facto dela aceitar a boleia de um cliente sem o conhecer, expondo-se a possíveis perigos? Aqui os olhos dela revelaram um trejeito de medo e foi com um frémito na voz que respondeu que a sua profissão era um risco, mas que tinha que confiar nos clientes para obter a sua cumplicidade e os seus serviços.
Anderson pediu-lhe para ela se despir. Lentamente, trauteando uma música suave, a Chiquinha foi tirando as peças do seu vestuário num striptease encenado para acicatar a excitação. Só quando tirou a última peça, as cuecas, e o seu sexo enroscado entre pernas se soltou e se compôs sobre os testículos, se confirmou que era um homem. Era espantoso poder ver um corpo daqueles. Não se podia ficar indiferente. As mulheres, que nascem mulheres, fazem da sua vida uma luta constante e interminável para serem mais belas, terem formas mais perfeitas, cabelos e rostos mais cativantes e atraentes, gastando milhões em cremes, operações plásticas, ginásios, clínicas de beleza, e muitas são aquelas que nunca se encontram como pessoas, devido à frustração de não gostarem de si mesmas, dos seus corpos e da sua aparência pouco feminina. E agora ali estava aquele homem, num corpo tão perfeito de mulher, que violava a lei da natureza e chegava a causar-me dor pelas inúmeras mulheres que lutam e sofrem tanto para terem uma aparência naturalmente feminina e jamais o conseguem. Estava pasmado, pois já tinha tido entre as minhas mãos vários corpos de mulheres e era obrigado a constatar que nenhuma delas possuía atributos tão atraentes. Naquele momento senti verdadeiramente pena daquele grupo enorme de mulheres que morrem sem o direito a sê-lo de verdade.
Não sei o que pensou o sargento Anderson, mas acredito que também não deve ter ficado indiferente. O que sei é que ele sacou a arma que trazia à cintura, entalada entre o cinto e as calças ,e apontando-a à Chiquinha disse-lhe;
 - Não passas de uma aberração! De uma vergonha para a humanidade! Se não queres ser como Deus te fez, deixaste de ser seu filho e de ter direito a viver no seu mundo!

Chiquinha começou a entrar em pânico tentando tapar-se com as mãos, numa vergonha apenas motivada pelo cagaço. Começou a chorar e por certo tentaria fugir, não fosse estar paralisada de medo. O sargento aproximou-se dela, fez-lhe o sinal da cruz com a arma, como numa extrema-unção, e rebentou-lhe o seio esquerdo com um tiro abafado pelo silenciador. O corpo dela foi cuspido pelo impacto e caiu desamparado de costas. O último movimento no seu corpo, foi o do pénis tombando morto sobre os testículos.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

BRASIL, VELÓRIO DOS SONHOS

Excerto do romance inédito "Brasil, Velório dos Sonhos"  


 "É melhor que fale por nós a nossa vida,
                   que as nossas palavras."
                                                         Mahatma Ghandi

Ninguém é verdadeiramente verdadeiro. Mesmo quando os princípios da nossa sensibilidade humana e dos nossos sentimentos nos induzem a sermos honestos, existe sempre uma reserva intima, um medo de uma dor antiga, um trauma que por vezes nos fere o pensamento e nos impede de contar seja para quem for certos pormenores da nossa vida. Não agimos assim por não confiar em quem amamos, ou porque não desejássemos partilhar esses acontecimentos, mas porque todos nós temos segredos que como teias de sombras nos enredam nas caves escuras, húmidas e bafientas, onde habitam as aranhas viscosas e negras da nossa intimidade aprisionada.
Existem pormenores da existência de cada um de nós, verdades ocultas que marcaram a nossa vida, que pretendemos esquecer, mas que em determinados momentos, como pedras atiradas pelo subconsciente nos embatem contra a memória e nos fazem reviver a dor e a vergonha da ferida e do acto que pretendíamos esquecer.
No fundo, só cada um conhece todos os filamentos da sua própria vida. Nela existem todos os tempos: o passado, o presente e o futuro. Alguém pode saber muito de outra pessoa até ao que pensa ser o ínfimo detalhe, mas o facto é que desconhece muito do todo que ela representa. Factos que a marcaram? Como reage o seu espírito em determinadas situações? Que pensamentos ou desejos a assediam permanentemente? Aquilo que efectivamente cada um é no espaço aberto da sua personalidade, muitas vezes camuflada?
Nem por Amor se conta tudo. E esse é o estádio mais frágil, disponível, apaixonado, sincero e verdadeiro da alma.
Existem factos que pretendemos omitir para nos protegermos a nós e aos outros, mas também porque nunca os conseguiremos contar.
A verdade é que somos cobardes, envergonhados, vergonhosos, fomos atraiçoados e somos traiçoeiros e esta reserva sobre a nossa existência íntima permite-nos estar a salvo, vivendo uma certa liberdade condicionada, num mundo que nos vigia, acusa, cataloga e encerra em ficheiros, que nos formata, e onde jamais poderemos ser livres.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

OS AMANTES

OS AMANTES

Os amantes sobrevoaram a noite e entraram pelas janelas abertas do quarto, livres pelo desejo. Despojaram-se das penas, apressadamente, cobrindo o chão com as pétalas da sua nudez. Depois, num frenesim, depenicaram-se sobre a cama e, numa vertigem humana, deixaram-se prender na gaiola íntima do prazer, sacrificando a liberdade às grades sensuais.
Beijaram-se, acariciaram-se, amaram-se, sem dizerem uma única palavra, apenas exaltados pela voz excitante e frenética dos gemidos.
Por fim, quando os seus corpos ficaram saciados, recolheram do chão as suas almas de pássaros e emplumando-se em silêncio, esvoaçaram de seguida em direcções diferentes, rasgando num golpe de asa os lençóis do céu, como aves migratórias de sentimentos que procuram no clima quente do sexo iludir a fria solidão dos ninhos. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

ENQUANTO A VILA DORME

ENQUANTO A VILA DORME



Enquanto a Vila dorme,
sento o coração na cadeira 
de baloiço da varanda,
ouvindo o concerto afinado dos galos
despertando a música da manhã.

As luzes são somente estrelas 

iluminando o céu das ruas
e a noite um lençol de sombras
cobrindo o corpo fresco da lezíria.

Cheira a feno,

ao cabelo húmido da erva
e às flores que abrem,
lentamente,
as pétalas perfumadas do olhar

A Vila,

tem uma caneta na mão
e descreve o início do dia
com os sentimentos serenos de paixão.

           Com agradecimento ao Victor Gago pela sua excelente fotografia.
           Chamusca, 25/06/2013, 06:15 horas.

domingo, 22 de setembro de 2013

A APNEIA DO AMOR


       Os  excertos que  a seguir apresento fazem parte do meu romance inédito "A Apneia do Amor". A história, baseada em factos reais, passa-se na Vila da Chamusca e na cidade de Paris, nos anos de 1967 a 2010.
      Entre a tristeza e a alegria, que são sentimentos tão sensíveis quanto a vida, e a emigração que dividiu famílias e subtraiu afectos, houve sempre a esperança feliz do AMOR.


FRANCISCO (um dos personagens do livro)

Para mim o Amor é o sentimento mais profundo, verdadeiro e importante na vida do ser humano. Não tem um tempo próprio, ou uma idade especial para se manifestar, apesar de ser um fruto da nossa alma e do nosso coração.

Dizem que há quem passe pelo longo caminho da sua existência e nunca o encontre. Quem o maltrate por desejos absurdos de luxúria, Poder e dinheiro. Argumentos que jamais o poderão substituir, para infelicidade dos próprios e daqueles que sofrem a inclemência da ditadura desesperada dos seus sentimentos ocos. Há quem o conheça e ame desditosamente a sua lembrança, desfeita como espuma pelas marés incontroláveis da vida. Há os que o sentem e o sofrem e são incapazes de suportar a presença da dor. E os que mesmo sofrendo, enfrentam a violência do sangue salpicando os sentimentos, mas não se rendem, enfrentando a besta do destino apenas com o corpo desarmado de esperança. A esperança de que só o Amor pode salvar. Só ele pode dar sentido a uma vida constantemente profanada pelo medo, pela ambição desmedida, pelo ódio, pela raiva, pelo desrespeito, pela violência, pela discriminação, pelo completo desprezo pelos direitos humanos, dos animais e da natureza.

MANUELA (outra das personagens do livro)

Já não posso pedir mais à minha memória. Sei que fui para França, levada pela minha mãe que, dizem-me, veio a falecer de cancro alguns anos mais tarde. Contam-me que o Francisco ali me foi visitar e que durante essa visita me engravidou. Que dei à luz a Sandi. Que pouco tempo depois dei uma queda aparatosa e bati com a cabeça no lancil do passeio, tendo ficado internada e inconsciente durante alguns anos num hospital em Paris e depois no de Santarém. Dizem-me que me trouxeram para Portugal, e posteriormente para esta casa, para que estivesse junto deles e pudessem continuar a cuidar de mim, à espera de um milagre que me despertasse e nos trouxesse a felicidade. Disto nada sei ou me lembro, e confesso que não faço questão alguma em me esforçar por recordar ou reconstituir.
Agora importa tão-somente dizer que amo o meu irmão pelo carinho, pela amizade, e pela atenção que ele me devota hoje em dia, mas também pela dedicação e ternura que me deu na infância. Amo-o acima de tudo porque esteve sempre junto de mim, mesmo quando eu não era mais do que uma sombra perdida no mundo do esquecimento. Ser irmão não é uma questão de sangue. Ser irmão é um sentimento de profundo Amor.
Amo o meu marido, porque foi juntos que aprendemos a descobrir o Amor ainda na infância. Amo-o pelo nosso presente, de adultos apaixonados. Amo-o pela coragem que demonstrou ao atravessar durante anos o deserto dos meus sentimentos. E pela dedicação íntegra de nunca ter desistido do nosso Amor. Agradeço-lhe por me ter resgatado da enfermidade dos hospitais. Me ter trazido para Portugal, e ter construído a sua vida em prol do nosso Amor. Amá-lo-ei eternamente por ter acreditado num sentimento verdadeiro e ter tido a fé, a certeza e a esperança de que só o Amor nos podia salvar.
Amo a minha filha e isso é tudo. Faltam-me as palavras, que não o Amor, pois tenho uma imensidão de gestos para lho expressar.



sábado, 21 de setembro de 2013

SENTIDOS


SENTIDOS

O poeta é um alfaiate
que talha a roupa
para vestir o corpo das palavras.

É um pescador
que lança as redes
para resgatar o coração dos peixes.

É simplesmente um agricultor
que semeia a terra de versos
para colher o trigo dos sentimentos.

O poeta é tão-somente um pássaro
igual às penas de todos os homens,
cujas asas se batem pelo Mundo
num voo infinito e humano,
tentando alcançar a PAZ,
o AMOR
e a LIBERDADE!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

PEDRAS, SOMENTE PEDRAS

PEDRAS, SOMENTE PEDRAS

Disseste-me que as palavras
eram raízes da essência humana,
que rasgavam a terra dos sentimentos
desabrochando em flor
e dando frutos,
numa natureza simples
e verdadeiramente produtiva do Amor.

E eu simplesmente acreditei,
com o mesmo espírito crente
de qualquer agricultor,
que depois da terra lavrada
e semeada de substantivos,
haveriam de brotar beijos e carícias,
adjectivos e verbos de paixão,
numa colheita farta e feliz.

Mas só pedras,
somente pedras,
podem ser as palavras
quando usadas e maltratadas
pela estéril violência da mentira.
                                                   Chamusca, 04/09/2013 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O AMOR NÃO É SOBRENATURAL!

O AMOR NÃO É SOBRENATURAL!


           
          Maior parte das pessoas vive à procura de um segredo para poder compreender a vida. Como se ela possuísse uma fórmula secreta e ao descobri-la a felicidade entrasse pela alma como uma Primavera infinita.
            Não basta o Amor, o único sentimento verdadeiro para se ser feliz!? Ou então todo o romantismo que se pinta, que se lê, que se escreve, que se canta, não passa de um arco-íris de papel a desfazer-se de lágrimas num céu de emoções fingidas, embaladas por um tango de palavras falsas, como a rosa artificial que ilude a beleza e o perfume do cabelo sem pétalas da dançarina!?
            Não procures mistérios ou tesouros no fundo da tua imaginação de ilusionista ou de pirata, a não ser que queiras com um truque de magia ou com artes de ladrão confundir e roubar a riqueza da tua essência: O AMOR!
            Se em algum momento o maltrataste, o abandonaste, o vendeste ou o perdeste. Ou se foste tu o maltratado, o abandonado, o vendido e o obrigado a afastar-te dele, tenta lembrar-te do quanto eras feliz no auge da paixão, antes do ódio ou da dor te corromperem.
            Já te recordaste da alegria e da ternura desses momentos?
            Afinal o que há de sobrenatural no AMOR?



sábado, 24 de agosto de 2013

SER PAI

SER PAI

         Ser pai é certamente a tarefa mais difícil do mundo. É perdermos, com coragem, a nossa liberdade. Deixarmos de estar presos à consciência livre do nosso egoísmo. Mesmo sabendo que mais lá à frente, na encruzilhada do tempo, os nossos filhos irão fazer outras escolhas, avançar a uma velocidade já insuportável para nós, afastar a sua juventude cheia de sonhos, de desejos e de vida, enquanto ficamos a vê-los partir, com o corpo já cansado e velho, mas com a mente tranquila de quem cumpriu a missão do Amor, envelhecendo para tornar jovem a esperança dos filhos.
Mesmo que muitas vezes me levante quebrado, devido ao esforço, às obrigações, às responsabilidades e aos problemas que os meus filhos me impõem, não subsiste em mim qualquer arrependimento de ter sido pai. Mesmo que o mais pequeno, de cinco anos de idade, por ser uma criança hiperactiva, me deixe à beira do desespero com as suas birras constantes e inesgotáveis, quando já só penso em dar-lhe umas palmadas, tento ter um derradeiro momento de lucidez. E nesse preciso instante, recordo que em algum lugar do passado também já fui assim: já parti copos, já entornei o sumo na mesa e na roupa, já exigi os gelados, os bolos, os carrinhos, as bolas, os balões, uma volta no carrossel e um sem número de tantas outras coisas que eu achava normal poder ter e fazerem parte dos direitos da criança:  errar para aprender e pedir para crescer.
Bem sei que estou a ficar velho. Que o tempo não se repete. Que possivelmente os meus filhos nunca agradecerão a minha dedicação, e irão provavelmente até culpar-me do que fiz ou não por eles, mas isso que importância tem. De uma forma ou de outra o tempo teria passado sempre ao mesmo ritmo, eu envelheceria irremediavelmente, e o argumento de gozar mais ou menos a vida não passa de uma ilusão, porque não podemos congelar os minutos e os momentos de prazer. Só ficam as recordações a esfarelarem-se na nossa mente e por vezes já não temos a certeza, nem retemos sequer o sentido ou a forma, de como é que, efectivamente, essas situações remotamente  agradáveis sucederam.
Pelo contrário, um filho é algo que permanece. Que está ali para nos provar que vivemos a vida. Que fizemos algo mais que ser uns simples egoístas, preocupados com prazer imediato: viajar, possuir mais poder e bens materiais, ter uma incontinência de relações sexuais e permanecermos belos e jovens.
Não tenhamos ilusões! Tudo se esvai! E a conta final, a aritmética entre o que ganhámos ou perdemos, com ou sem filhos, tem um resultado improvável e surpreendente.
Por isso, quando ontem à noite o meu filho mais pequeno fez uma birra para ir para casa jogar no computador, e nós, os pais, queríamos ficar no baile a dançar,  provavelmente roubou-nos um momento de prazer e liberdade, mas permitiu que eu e a minha mulher aos regressarmos mais cedo fizéssemos Amor, o que certamente não sucederia se regressássemos de madrugada suados e cansados.
E às sete da manhã quando o menino me estremunhou a noite de sono por ter feito chichi na cama, deu-me a oportunidade de escrever este texto que eventualmente não escreveria.

Certamente ao ter filhos perdi muita da minha liberdade, tive muitas preocupações e envelheci mais rapidamente mas, sem dúvida, com eles tenho mais afectos e alegria e desfruto mais a vida.

                                                  Chamusca, 19/08/2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O CHEIRO DA VIDA

O CHEIRO DA VIDA
         Houve um tempo em que eu estava muito só, numa cidade enorme, rodeado por milhões de pessoas, num país tão distante do meu que nem as recordações me conseguiam aproximar dele, antes me aproximavam mais da solidão. Por vezes andava sem destino pelas ruas cheias de mendigos, ladrões, chulos, prostitutas e de toda a espécie de pessoas que constituem a canalha humana, para escutar o barulho, os convites sexuais, as palavras irritadas que mordiam a noite, os risos alcoólicos que embebedavam as estrelas e faziam o olhar do céu ter um brilho mais intenso.
            Quando se está sozinho existe uma fé ou uma esperança que se apodera do nosso íntimo, uma crença que o acaso fatalmente nos enviará uma companhia.
            Outras vezes, perseguindo esta intuição, descia aos corredores profundos do Metro e enfiava-me na jaula de uma carruagem, como numa roulote itinerante de um circo, observando o espectáculo da fauna humana. Passava horas seguidas a viajar por entre os túneis da tristeza à espera do encontro com uma coincidência feliz.
            Um dia, uma mulher, ainda jovem, veio sentar-se a meu lado num dos bancos da estação. Cheirava a lixo, fétido e comum a todos os corpos sujos e húmidos, a suor e aos temperos azedos dos restos das comidas despejadas nos contentores das traseiras dos restaurantes.
            Com nojo, pensei em fugir. Porque só se foge do que é insuportável. Mas ela interrompeu-me essa vontade, pedindo-me um cigarro. Respondi-lhe que não fumava. De seguida implorou-me a dádiva de umas moedas que, de momento, eu não tinha. Por último pediu-me de comer e o seu corpo magro fez-me lembrar a dor que eu próprio já sofrera quando passara fome.
            Fiquei aflito entre a necessidade de a ajudar e alimentar e a perspectiva indesejável de para o fazer, ter que lhe abrir a porta da minha casa. Venci o receio do seu corpo impestar a intimidade do meu lar e puxando a cadeira pedi-lhe que se sentasse à mesa e servi-lhe o queijo, o leite, o pão e as bananas, todos os alimentos que possuía e que se destinavam a ser o meu jantar. Ela devorou-os com o desejo, a violência e a inconsciência próprias dos esfaimados. Roeu-me o vazio angustiante do meu estômago, mas senti-me confortado pelo prazer aceso no rosto da mulher.
            Desejei que a mendiga se fosse embora, para me poder deitar e aconchegar no sono, rapidamente, a barriga vazia, mas ela pediu-me para dormir na minha cama. Senti a raiva e o vómito inundarem-me o sangue e a garganta e desejei gritar-lhe: «Depois de tudo o que já fiz por ti, ainda queres humilhar-me, sua porca, deitando o esterco do teu corpo sobre os lençóis limpos, contendo o cheiro da minha intimidade!?» Mas contive-me. Deixei-a até escolher o lado da cama onde deitar-se. Por fim deitei-me e, surpreendentemente, depois de tantas noites de insónia dormi profundamente. Quando acordei o sol já ia alto e a mulher tinha partido. O mau cheiro que deixara já não o sentia tão desagradável e inesperadamente percebi a verdade: nada deixa o homem mais intranquilo e desesperado do que sentir-se sozinho e nada cheira pior do que o podre da solidão.
                                                                                        Rio de Janeiro 1988

                                                                                       Monte Gordo 2013