segunda-feira, 25 de setembro de 2017

PASSARINHO HUMANO

PASSARINHO HUMANO
(Dedicado a vocês, passarinhos)

(E a todos aqueles que perguntam por onde anda voando o meu coração).

        Hoje um passarinho entrou pela janela do meu quarto e ficou preso e sem a liberdade do céu. Desesperado, sem encontrar a saída, voava sem norte procurando libertar-se do medo e voltar de novo às asas do seu mundo, atravessando a ilusão do sol refletido no espelho da cómoda. E batia e batia com a cabeça e o bico contra a luz falsa do vidro, que para ele brilhava como a esperança da liberdade. Pobre passarinho já ferido, o sangue salpicando tudo, até as minhas mãos que o tentavam salvar da morte. Coitado dele que, cego pelo seu instinto, preferiu morrer a entregar-se ao cativeiro do homem.
         Também tu, passarinho humano, tantas vezes tentas voar sem a ilusão das asas e te encontras preso na gaiola do teu espírito. Cercado de espelhos, onde por momentos te envaideces e te achas belo e demasiadas vezes te entristeces e te sentes feio. Nesse dia a dia em que a liberdade é somente uma chuva de penas caídas do céu, porque esta coisa de ser humano é estar preso à mentira, à hipocrisia, ao poder, ao desmando dos outros, à traição e ao sexo que tantas, demasiadas vezes, mais do que AMOR é feito de muita solidão.

         Talvez tu, passarinho humano, penses que a tua liberdade está em fugires pela janela do infinito do céu?

sexta-feira, 19 de maio de 2017

PROCURANDO O AMOR


Eu estava entre a multidão e todos acendíamos as sombras com as lâmpadas do coração, tentando encontrar o AMOR em qualquer beco escuro e abandonado da vida. E todos éramos poucos, porque mais não fazíamos que andar às voltas e nos encontrarmos novamente no princípio de tudo, no lugar de partida, fragilizados pelo cansaço emocional de nos acharmos com as mãos vazias.
Pelo caminho somente víamos sinais de violência, rastos de sangue pingado no pó das estradas, a mentira a espreitar às janelas, os espantalhos pregados na cruz das ruas para espantar a esperança dos homens.
Tínhamos os joelhos feridos de tanto cair, pois como cegos tínhamos perdido a visão da alma.
Enquanto o mundo explodia, a fome alastrava e o desespero gritava tão alto que atingia até os ouvidos do céu, eu e a multidão partíamos mais uma vez à procura de encontrar não apenas vãs palavras, usadas para seduzir, mas o sentimento do verdadeiro AMOR.
E, como mendigos, continuaremos até rasgar os pés nas pedras e nos espinhos dos caminhos. Até nos encontrarmos e vivermos de novo a essência do AMOR.

Foto da autoria de Maria Filipe.

terça-feira, 25 de abril de 2017

AMOR E SEXO


Apenas conhecemos duas palavras que servem para juntar os corpos e os sentimentos, ou para lhes dar significado: AMOR E SEXO. Mas não temos poder sobre elas. Não as podemos controlar. Desconhecemos quando elas mentem ou dizem a verdade. Quando estão unidas ou de costas voltadas. Quando nenhuma delas existe, apesar dos atos praticados. Quando deixam de ser simplesmente palavras e passam a ser o sangue vivo dos sentimentos.
Amor e sexo, tão diferentes na língua quanto no corpo da grafia. A sua conjugação só pode ser feita pelo simbolismo dos sentidos, pela sensibilidade das sensações e dos afetos. Não sabemos qual o seu lugar na ordem das intenções: virá primeiro o sexo e depois o Amor? Ou será o inverso? Poderá sobreviver o Amor sem sexo ou o sexo sem Amor? Viverão em comum? Ou poderá nem sequer existir nenhum destes fatores no coração de uma vida humana? Nem tão-somente no consciente ou subconsciente do ser humano?
Provavelmente só cada um poderá responder com a sua vida. Eu limito-me a responder com a minha e sei que o sexo e o Amor condicionam o nosso dia-a-dia, transformam a sociedade, viram os corpos do avesso e fazem-nos emocionar e sofrer toda a espécie de distúrbios, de sensações e de sentimentos, sendo a alegria e a tristeza os extremos dessa sensibilidade.
 Talvez haja um “complexo do sexo” e um “complexo do Amor”, ou apenas um complexo único que conjuga os dois? A única certeza que possuo é que a vida é complexa, simplesmente porque nós somos tão estupidamente complexos.

sábado, 1 de abril de 2017

VENCER A MORTE

     

     E assim, num repente, as palavras silenciaram-se em mim. Era impossível escrever, falar e encontrar um objetivo e um significado para dizer o quer que fosse. O mundo? A vida? Eram um monstro que consumia a vontade e a esperança. E os meus melhores amigos morriam de depressão, suicidando-se com drogas e cordas e no profundo dos poços. Com quem falar? Como explicar? O que perguntar? Tinha a dor a explodir-me na alma e os olhos estavam cegos de chorar. É difícil viver assim contando os corpos e os ramos de flores depositados sobre as campas. Foi então que procurei fugir para evitar ser o próximo, já que a angústia e a tristeza me acompanhavam, me perseguiam, me ameaçavam. Desta forma encurralado entre o silêncio e o desespero, pensei que a luz se ia apagar repentinamente na mais completa escuridão dos meus sentimentos. Mas, subitamente, o sol rasgou janelas no azulado do céu e iluminou o caos do meu dia a dia. E vi, tão claramente, o interior da minha família e o AMOR que irradiava dela e decidi voltar à luta, a enfrentar a morte, o desânimo, o sofrimento, a violência e as consequências de todos os dias, porque ainda não cheguei ao fim do meu caminho e lá no fundo ainda existe muito para fazer por mim e pelos outros.
     Por isso voltei a escrever, a deixar este texto, como prova de que a melhor forma de honrar as mortes dos que nos foram queridos, é vivermos sem fantasmas, tentando AMAR e sobreviver com ALEGRIA.

              Fotografia da autoria de MARIA FILIPE.