terça-feira, 22 de outubro de 2013

BRASIL, VELÓRIO DOS SONHOS

Excerto do romance inédito "Brasil, Velório dos Sonhos"  


 "É melhor que fale por nós a nossa vida,
                   que as nossas palavras."
                                                         Mahatma Ghandi

Ninguém é verdadeiramente verdadeiro. Mesmo quando os princípios da nossa sensibilidade humana e dos nossos sentimentos nos induzem a sermos honestos, existe sempre uma reserva intima, um medo de uma dor antiga, um trauma que por vezes nos fere o pensamento e nos impede de contar seja para quem for certos pormenores da nossa vida. Não agimos assim por não confiar em quem amamos, ou porque não desejássemos partilhar esses acontecimentos, mas porque todos nós temos segredos que como teias de sombras nos enredam nas caves escuras, húmidas e bafientas, onde habitam as aranhas viscosas e negras da nossa intimidade aprisionada.
Existem pormenores da existência de cada um de nós, verdades ocultas que marcaram a nossa vida, que pretendemos esquecer, mas que em determinados momentos, como pedras atiradas pelo subconsciente nos embatem contra a memória e nos fazem reviver a dor e a vergonha da ferida e do acto que pretendíamos esquecer.
No fundo, só cada um conhece todos os filamentos da sua própria vida. Nela existem todos os tempos: o passado, o presente e o futuro. Alguém pode saber muito de outra pessoa até ao que pensa ser o ínfimo detalhe, mas o facto é que desconhece muito do todo que ela representa. Factos que a marcaram? Como reage o seu espírito em determinadas situações? Que pensamentos ou desejos a assediam permanentemente? Aquilo que efectivamente cada um é no espaço aberto da sua personalidade, muitas vezes camuflada?
Nem por Amor se conta tudo. E esse é o estádio mais frágil, disponível, apaixonado, sincero e verdadeiro da alma.
Existem factos que pretendemos omitir para nos protegermos a nós e aos outros, mas também porque nunca os conseguiremos contar.
A verdade é que somos cobardes, envergonhados, vergonhosos, fomos atraiçoados e somos traiçoeiros e esta reserva sobre a nossa existência íntima permite-nos estar a salvo, vivendo uma certa liberdade condicionada, num mundo que nos vigia, acusa, cataloga e encerra em ficheiros, que nos formata, e onde jamais poderemos ser livres.