terça-feira, 27 de agosto de 2013

O AMOR NÃO É SOBRENATURAL!

O AMOR NÃO É SOBRENATURAL!


           
          Maior parte das pessoas vive à procura de um segredo para poder compreender a vida. Como se ela possuísse uma fórmula secreta e ao descobri-la a felicidade entrasse pela alma como uma Primavera infinita.
            Não basta o Amor, o único sentimento verdadeiro para se ser feliz!? Ou então todo o romantismo que se pinta, que se lê, que se escreve, que se canta, não passa de um arco-íris de papel a desfazer-se de lágrimas num céu de emoções fingidas, embaladas por um tango de palavras falsas, como a rosa artificial que ilude a beleza e o perfume do cabelo sem pétalas da dançarina!?
            Não procures mistérios ou tesouros no fundo da tua imaginação de ilusionista ou de pirata, a não ser que queiras com um truque de magia ou com artes de ladrão confundir e roubar a riqueza da tua essência: O AMOR!
            Se em algum momento o maltrataste, o abandonaste, o vendeste ou o perdeste. Ou se foste tu o maltratado, o abandonado, o vendido e o obrigado a afastar-te dele, tenta lembrar-te do quanto eras feliz no auge da paixão, antes do ódio ou da dor te corromperem.
            Já te recordaste da alegria e da ternura desses momentos?
            Afinal o que há de sobrenatural no AMOR?



sábado, 24 de agosto de 2013

SER PAI

SER PAI

         Ser pai é certamente a tarefa mais difícil do mundo. É perdermos, com coragem, a nossa liberdade. Deixarmos de estar presos à consciência livre do nosso egoísmo. Mesmo sabendo que mais lá à frente, na encruzilhada do tempo, os nossos filhos irão fazer outras escolhas, avançar a uma velocidade já insuportável para nós, afastar a sua juventude cheia de sonhos, de desejos e de vida, enquanto ficamos a vê-los partir, com o corpo já cansado e velho, mas com a mente tranquila de quem cumpriu a missão do Amor, envelhecendo para tornar jovem a esperança dos filhos.
Mesmo que muitas vezes me levante quebrado, devido ao esforço, às obrigações, às responsabilidades e aos problemas que os meus filhos me impõem, não subsiste em mim qualquer arrependimento de ter sido pai. Mesmo que o mais pequeno, de cinco anos de idade, por ser uma criança hiperactiva, me deixe à beira do desespero com as suas birras constantes e inesgotáveis, quando já só penso em dar-lhe umas palmadas, tento ter um derradeiro momento de lucidez. E nesse preciso instante, recordo que em algum lugar do passado também já fui assim: já parti copos, já entornei o sumo na mesa e na roupa, já exigi os gelados, os bolos, os carrinhos, as bolas, os balões, uma volta no carrossel e um sem número de tantas outras coisas que eu achava normal poder ter e fazerem parte dos direitos da criança:  errar para aprender e pedir para crescer.
Bem sei que estou a ficar velho. Que o tempo não se repete. Que possivelmente os meus filhos nunca agradecerão a minha dedicação, e irão provavelmente até culpar-me do que fiz ou não por eles, mas isso que importância tem. De uma forma ou de outra o tempo teria passado sempre ao mesmo ritmo, eu envelheceria irremediavelmente, e o argumento de gozar mais ou menos a vida não passa de uma ilusão, porque não podemos congelar os minutos e os momentos de prazer. Só ficam as recordações a esfarelarem-se na nossa mente e por vezes já não temos a certeza, nem retemos sequer o sentido ou a forma, de como é que, efectivamente, essas situações remotamente  agradáveis sucederam.
Pelo contrário, um filho é algo que permanece. Que está ali para nos provar que vivemos a vida. Que fizemos algo mais que ser uns simples egoístas, preocupados com prazer imediato: viajar, possuir mais poder e bens materiais, ter uma incontinência de relações sexuais e permanecermos belos e jovens.
Não tenhamos ilusões! Tudo se esvai! E a conta final, a aritmética entre o que ganhámos ou perdemos, com ou sem filhos, tem um resultado improvável e surpreendente.
Por isso, quando ontem à noite o meu filho mais pequeno fez uma birra para ir para casa jogar no computador, e nós, os pais, queríamos ficar no baile a dançar,  provavelmente roubou-nos um momento de prazer e liberdade, mas permitiu que eu e a minha mulher aos regressarmos mais cedo fizéssemos Amor, o que certamente não sucederia se regressássemos de madrugada suados e cansados.
E às sete da manhã quando o menino me estremunhou a noite de sono por ter feito chichi na cama, deu-me a oportunidade de escrever este texto que eventualmente não escreveria.

Certamente ao ter filhos perdi muita da minha liberdade, tive muitas preocupações e envelheci mais rapidamente mas, sem dúvida, com eles tenho mais afectos e alegria e desfruto mais a vida.

                                                  Chamusca, 19/08/2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O CHEIRO DA VIDA

O CHEIRO DA VIDA
         Houve um tempo em que eu estava muito só, numa cidade enorme, rodeado por milhões de pessoas, num país tão distante do meu que nem as recordações me conseguiam aproximar dele, antes me aproximavam mais da solidão. Por vezes andava sem destino pelas ruas cheias de mendigos, ladrões, chulos, prostitutas e de toda a espécie de pessoas que constituem a canalha humana, para escutar o barulho, os convites sexuais, as palavras irritadas que mordiam a noite, os risos alcoólicos que embebedavam as estrelas e faziam o olhar do céu ter um brilho mais intenso.
            Quando se está sozinho existe uma fé ou uma esperança que se apodera do nosso íntimo, uma crença que o acaso fatalmente nos enviará uma companhia.
            Outras vezes, perseguindo esta intuição, descia aos corredores profundos do Metro e enfiava-me na jaula de uma carruagem, como numa roulote itinerante de um circo, observando o espectáculo da fauna humana. Passava horas seguidas a viajar por entre os túneis da tristeza à espera do encontro com uma coincidência feliz.
            Um dia, uma mulher, ainda jovem, veio sentar-se a meu lado num dos bancos da estação. Cheirava a lixo, fétido e comum a todos os corpos sujos e húmidos, a suor e aos temperos azedos dos restos das comidas despejadas nos contentores das traseiras dos restaurantes.
            Com nojo, pensei em fugir. Porque só se foge do que é insuportável. Mas ela interrompeu-me essa vontade, pedindo-me um cigarro. Respondi-lhe que não fumava. De seguida implorou-me a dádiva de umas moedas que, de momento, eu não tinha. Por último pediu-me de comer e o seu corpo magro fez-me lembrar a dor que eu próprio já sofrera quando passara fome.
            Fiquei aflito entre a necessidade de a ajudar e alimentar e a perspectiva indesejável de para o fazer, ter que lhe abrir a porta da minha casa. Venci o receio do seu corpo impestar a intimidade do meu lar e puxando a cadeira pedi-lhe que se sentasse à mesa e servi-lhe o queijo, o leite, o pão e as bananas, todos os alimentos que possuía e que se destinavam a ser o meu jantar. Ela devorou-os com o desejo, a violência e a inconsciência próprias dos esfaimados. Roeu-me o vazio angustiante do meu estômago, mas senti-me confortado pelo prazer aceso no rosto da mulher.
            Desejei que a mendiga se fosse embora, para me poder deitar e aconchegar no sono, rapidamente, a barriga vazia, mas ela pediu-me para dormir na minha cama. Senti a raiva e o vómito inundarem-me o sangue e a garganta e desejei gritar-lhe: «Depois de tudo o que já fiz por ti, ainda queres humilhar-me, sua porca, deitando o esterco do teu corpo sobre os lençóis limpos, contendo o cheiro da minha intimidade!?» Mas contive-me. Deixei-a até escolher o lado da cama onde deitar-se. Por fim deitei-me e, surpreendentemente, depois de tantas noites de insónia dormi profundamente. Quando acordei o sol já ia alto e a mulher tinha partido. O mau cheiro que deixara já não o sentia tão desagradável e inesperadamente percebi a verdade: nada deixa o homem mais intranquilo e desesperado do que sentir-se sozinho e nada cheira pior do que o podre da solidão.
                                                                                        Rio de Janeiro 1988

                                                                                       Monte Gordo 2013 

sábado, 17 de agosto de 2013

LIBERTA-TE, PORQUE ESTÁS VIVO!


LIBERTA-TE, PORQUE ESTÁS VIVO!

             Eu gostava que te amasses. Que não andasses constantemente a chorar com pena de ti próprio. Bem sei que viver talvez seja a tarefa mais difícil do ser humano, mas se estás nesta Terra porque razão não vives? Tens falta de dinheiro, de Amor, de auto-estima e estás triste? Meu pobre privilegiado que tens a liberdade de escolher o teu caminho e enfias o pescoço no nó mais apertado da tua alma. Liberta-te! Abre as janelas e as portas do teu corpo e dos teus sentimentos e vive! A vida apenas te pede que sejas um ser humano de verdade, com defeitos e virtudes, mas com um coração enorme como a lua cheia a iluminar a noite dos perdidos. Vá solitário, ferido, varre essa solidão do teu espírito e encara a higiene da verdade:
         Se não te amares, a quem serás capaz de amar?  Todos temos problemas! Ou pensas que és só tu? A sobrevivência depende apenas da tua vontade, mas se continuares apenas a chorar e a lamentar-te, o teu dia-a-dia será somente um horizonte negro, uma tempestade, onde o sol asfixiará no útero infértil das nuvens.
               Liberta-te, porque estás vivo!

                                      Chamusca, 17/08/2013


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O MENINO JESUS

O MENINO JESUS

      O Menino Jesus nasceu no curral de um pasto dos Açores. Os seus pais viviam do leite da ordenha das vacas que, à noite, ao dormirem entre elas, os aqueciam com o seu bafo quente, quando o vento soprava de norte e se enfiava por entre as rachas das tábuas e os açoitava com chicotadas de frio.
      A família vivia num mundo perdido, entre a floresta e o monte, no seio da natureza e da simplicidade, longe dos homens que inventam leis para amarrarem a vida em coletes de força da opressão.
     O Menino Jesus não tinha olhos azuis, nem era loura a sua pele, mas o seu berço era uma manjedoura e o seu tecto eram as estrelas que cobriam o telhado do céu. A sua vida era tão singela, como a dos pássaros que crescem no ninho. Os seus pais esvoaçavam constantemente em seu redor num chilreio de ternura. À hora certa e biológica a mãe depositava o mamilo entre as gengivas ansiosas do Menino, numa mamada carinhosa. A família era feliz.
    Até que um dia os homens fardados trouxeram as armas e atingiram o sofrimento dos pais, ferindo-os gravemente com a retirada da criança que, segundo as autoridades, corria perigo de vida, sobrevivendo num ambiente miserável.
     O Menino foi viver para uma instituição, depois do tribunal aplicar uma medida com vista à sua futura adopção. Os pais ficaram inibidos de o ver e ele ficou só, nas mãos da lei.
    Várias foram as famílias que o quiseram adoptar, para depois o rejeitarem. Muitas foram as instituições, por onde os senhores que trabalham com os códigos das leis arrastaram o seu corpo e a sua presença inocente e castigada.
    Por fim, aos 15 anos de idade, surgiu uma luz, qual estrela, nos olhos negros do céu e a alegria abriu um rasgo luminoso de esperança. Um casal queria fazer o seu apadrinhamento civil. Dois dias, somente, bastaram para que o “padrinho” expulsasse de casa e atirasse para a rua o jovem Jesus, como um cão a quem não se reconhecem direitos.
      À falta de instituição o pobre moço foi despejado num asilo, entre a solidão e o silêncio da velhice. Apesar de tudo, paciente, dócil, meigo e amigo, é um anjo no carinho aos idosos e um estudante exemplar.
    Qual será o futuro da sua vida? Só provavelmente Deus o saberá. Num mundo tão violento, insensível e cruel, por ora ele vai sarando as suas feridas com o espírito tranquilo e sereno da paz.
            Só peço, imploro,
            Menino,
            Homem,
            Jesus,
            que aos 33 anos
            não te espetem na cruz. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AMA!

AMA!

Ama!
Porque o tempo passa
sobre o teu coração envelhecido
e na juventude da paixão
crescem cabelos brancos
e rasgam-se rugas
no rosto da ilusão.

Ama!
Agora,
que o noivado dos teus sentimentos
se pode casar
com a esperança e a alegria
do teu espírito jovem e feliz.

Ama!
Antes que na raiz da tua alma
cresçam apenas as recordações
e o teu Amor fique só,
ferido,
sofrendo
a dor terminal da solidão.


                             Chamusca, 04/08/2013

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

CRIMINOSA!

CRIMINOSA!

Quando as folhas
das árvores caíssem
e os pássaros dormissem
sobre os poleiros nus dos ramos,
prometeste que voltavas
para me aquecer
com a beleza e o carinho
do manto verde do teu corpo.
Em vão me sentei
à tua espera,
a olhar a nudez
feia das árvores
e os pássaros
como pedras frias
pousadas nos braços negros
e desesperados
da ramagem solitária do dia-a-dia.
CRIMINOSA!
Roubaste-me a esperança,
assaltaste-me o cofre feliz da alma
e enfiaste a dor
como a lâmina de uma faca
até ao fundo do meu coração.
CRIMINOSA!
Deixaste-me aqui a morrer,
lentamente,
sem qualquer assistência,
num requinte de violência,
recordando os momentos apaixonados
de um Amor assassinado.


                                               Chamusca, 31/07/2013