sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

ESPANTALHO

«O amor só atrapalha!»
Gritaste-me com os olhos
arrancados de lágrimas.
E eu fiquei ali,
especado e calado,
como um espantalho
na paisagem fria da cozinha,
espantado pelo teu bater
de asas desesperado
e pelo meu coração de palha
morto no peito.

Podia ser humano
e dizer que te amava,
ou que já não,
usando o consolo da mentira
ou o tiro mortal da verdade.
Mas não sabia o que dizer-te,
tão pouco sabia dizer-te o que sentia.

Estava ali vestindo de homem
os sentimentos empalhados,
como um mero espantalho
onde apenas os pássaros
pousam a alma,
num silêncio cruel,
 de bico quebrado
e sem um pio de amor.