quinta-feira, 17 de outubro de 2013

OS AMANTES

OS AMANTES

Os amantes sobrevoaram a noite e entraram pelas janelas abertas do quarto, livres pelo desejo. Despojaram-se das penas, apressadamente, cobrindo o chão com as pétalas da sua nudez. Depois, num frenesim, depenicaram-se sobre a cama e, numa vertigem humana, deixaram-se prender na gaiola íntima do prazer, sacrificando a liberdade às grades sensuais.
Beijaram-se, acariciaram-se, amaram-se, sem dizerem uma única palavra, apenas exaltados pela voz excitante e frenética dos gemidos.
Por fim, quando os seus corpos ficaram saciados, recolheram do chão as suas almas de pássaros e emplumando-se em silêncio, esvoaçaram de seguida em direcções diferentes, rasgando num golpe de asa os lençóis do céu, como aves migratórias de sentimentos que procuram no clima quente do sexo iludir a fria solidão dos ninhos.