sábado, 24 de agosto de 2013

SER PAI

SER PAI

         Ser pai é certamente a tarefa mais difícil do mundo. É perdermos, com coragem, a nossa liberdade. Deixarmos de estar presos à consciência livre do nosso egoísmo. Mesmo sabendo que mais lá à frente, na encruzilhada do tempo, os nossos filhos irão fazer outras escolhas, avançar a uma velocidade já insuportável para nós, afastar a sua juventude cheia de sonhos, de desejos e de vida, enquanto ficamos a vê-los partir, com o corpo já cansado e velho, mas com a mente tranquila de quem cumpriu a missão do Amor, envelhecendo para tornar jovem a esperança dos filhos.
Mesmo que muitas vezes me levante quebrado, devido ao esforço, às obrigações, às responsabilidades e aos problemas que os meus filhos me impõem, não subsiste em mim qualquer arrependimento de ter sido pai. Mesmo que o mais pequeno, de cinco anos de idade, por ser uma criança hiperactiva, me deixe à beira do desespero com as suas birras constantes e inesgotáveis, quando já só penso em dar-lhe umas palmadas, tento ter um derradeiro momento de lucidez. E nesse preciso instante, recordo que em algum lugar do passado também já fui assim: já parti copos, já entornei o sumo na mesa e na roupa, já exigi os gelados, os bolos, os carrinhos, as bolas, os balões, uma volta no carrossel e um sem número de tantas outras coisas que eu achava normal poder ter e fazerem parte dos direitos da criança:  errar para aprender e pedir para crescer.
Bem sei que estou a ficar velho. Que o tempo não se repete. Que possivelmente os meus filhos nunca agradecerão a minha dedicação, e irão provavelmente até culpar-me do que fiz ou não por eles, mas isso que importância tem. De uma forma ou de outra o tempo teria passado sempre ao mesmo ritmo, eu envelheceria irremediavelmente, e o argumento de gozar mais ou menos a vida não passa de uma ilusão, porque não podemos congelar os minutos e os momentos de prazer. Só ficam as recordações a esfarelarem-se na nossa mente e por vezes já não temos a certeza, nem retemos sequer o sentido ou a forma, de como é que, efectivamente, essas situações remotamente  agradáveis sucederam.
Pelo contrário, um filho é algo que permanece. Que está ali para nos provar que vivemos a vida. Que fizemos algo mais que ser uns simples egoístas, preocupados com prazer imediato: viajar, possuir mais poder e bens materiais, ter uma incontinência de relações sexuais e permanecermos belos e jovens.
Não tenhamos ilusões! Tudo se esvai! E a conta final, a aritmética entre o que ganhámos ou perdemos, com ou sem filhos, tem um resultado improvável e surpreendente.
Por isso, quando ontem à noite o meu filho mais pequeno fez uma birra para ir para casa jogar no computador, e nós, os pais, queríamos ficar no baile a dançar,  provavelmente roubou-nos um momento de prazer e liberdade, mas permitiu que eu e a minha mulher aos regressarmos mais cedo fizéssemos Amor, o que certamente não sucederia se regressássemos de madrugada suados e cansados.
E às sete da manhã quando o menino me estremunhou a noite de sono por ter feito chichi na cama, deu-me a oportunidade de escrever este texto que eventualmente não escreveria.

Certamente ao ter filhos perdi muita da minha liberdade, tive muitas preocupações e envelheci mais rapidamente mas, sem dúvida, com eles tenho mais afectos e alegria e desfruto mais a vida.

                                                  Chamusca, 19/08/2013