segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O CHEIRO DA VIDA

O CHEIRO DA VIDA
         Houve um tempo em que eu estava muito só, numa cidade enorme, rodeado por milhões de pessoas, num país tão distante do meu que nem as recordações me conseguiam aproximar dele, antes me aproximavam mais da solidão. Por vezes andava sem destino pelas ruas cheias de mendigos, ladrões, chulos, prostitutas e de toda a espécie de pessoas que constituem a canalha humana, para escutar o barulho, os convites sexuais, as palavras irritadas que mordiam a noite, os risos alcoólicos que embebedavam as estrelas e faziam o olhar do céu ter um brilho mais intenso.
            Quando se está sozinho existe uma fé ou uma esperança que se apodera do nosso íntimo, uma crença que o acaso fatalmente nos enviará uma companhia.
            Outras vezes, perseguindo esta intuição, descia aos corredores profundos do Metro e enfiava-me na jaula de uma carruagem, como numa roulote itinerante de um circo, observando o espectáculo da fauna humana. Passava horas seguidas a viajar por entre os túneis da tristeza à espera do encontro com uma coincidência feliz.
            Um dia, uma mulher, ainda jovem, veio sentar-se a meu lado num dos bancos da estação. Cheirava a lixo, fétido e comum a todos os corpos sujos e húmidos, a suor e aos temperos azedos dos restos das comidas despejadas nos contentores das traseiras dos restaurantes.
            Com nojo, pensei em fugir. Porque só se foge do que é insuportável. Mas ela interrompeu-me essa vontade, pedindo-me um cigarro. Respondi-lhe que não fumava. De seguida implorou-me a dádiva de umas moedas que, de momento, eu não tinha. Por último pediu-me de comer e o seu corpo magro fez-me lembrar a dor que eu próprio já sofrera quando passara fome.
            Fiquei aflito entre a necessidade de a ajudar e alimentar e a perspectiva indesejável de para o fazer, ter que lhe abrir a porta da minha casa. Venci o receio do seu corpo impestar a intimidade do meu lar e puxando a cadeira pedi-lhe que se sentasse à mesa e servi-lhe o queijo, o leite, o pão e as bananas, todos os alimentos que possuía e que se destinavam a ser o meu jantar. Ela devorou-os com o desejo, a violência e a inconsciência próprias dos esfaimados. Roeu-me o vazio angustiante do meu estômago, mas senti-me confortado pelo prazer aceso no rosto da mulher.
            Desejei que a mendiga se fosse embora, para me poder deitar e aconchegar no sono, rapidamente, a barriga vazia, mas ela pediu-me para dormir na minha cama. Senti a raiva e o vómito inundarem-me o sangue e a garganta e desejei gritar-lhe: «Depois de tudo o que já fiz por ti, ainda queres humilhar-me, sua porca, deitando o esterco do teu corpo sobre os lençóis limpos, contendo o cheiro da minha intimidade!?» Mas contive-me. Deixei-a até escolher o lado da cama onde deitar-se. Por fim deitei-me e, surpreendentemente, depois de tantas noites de insónia dormi profundamente. Quando acordei o sol já ia alto e a mulher tinha partido. O mau cheiro que deixara já não o sentia tão desagradável e inesperadamente percebi a verdade: nada deixa o homem mais intranquilo e desesperado do que sentir-se sozinho e nada cheira pior do que o podre da solidão.
                                                                                        Rio de Janeiro 1988

                                                                                       Monte Gordo 2013