domingo, 16 de junho de 2013

HISTÓRIAS VERDADEIRAS



O CIRCO DA TRISTEZA (1)

         A mãe, ainda jovem no bilhete de identidade, chegou com o seu rosto estriado de rugas da depressão e os lábios murchos pela velhice das lamentações. Estendeu para o oficial de justiça os seus olhos como pedras fundas e sujas do lodo das olheiras e deixou cair as folhas podres das palavras da raiz desdentada das gengivas.
- Venho só avisar que o meu filho é um excelente aluno. Tem 14 anos. Vai terminar o 9.º ano e vou tirá-lo da escola.
O trabalhador da justiça permaneceu em silêncio, para que ela se pudesse explicar.
- O pai nunca quis saber dele. Eu estou doente. Os 246€ que recebo por parte da Segurança Social mal dão para comermos. Portanto, é impossível mantê-lo a estudar.
O oficial encarou as mãos manchadas de lixívia da mulher e respondeu-lhe:
- Mas assim, devido ao absentismo escolar, o seu filho é considerado um jovem em risco e em perigo na sua formação, o que vai dar origem a um processo de promoção e protecção.
A mãe abriu a concha das mãos, para exprimir melhor as palavras com a batuta dos gestos e respondeu:
- Leis estúpidas estas que penalizam as mães e os filhos por serem pobres, devido à riqueza injusta de quem as fez. O que é que prevalece: a lei obrigatória de ir à escola, ou o direito de vivermos numa sociedade justa?
A mulher não esperou pela resposta, se é que a pretendia, e foi-se embora ao encontro do espectáculo da vida.

O oficial de justiça voltou ao seu lugar e como um autómato continuou a esmagar as palavras sob o teclado do computador.