sexta-feira, 21 de junho de 2013

HISTÓRIAS VERDADEIRAS (2)



O CIRCO DA TRISTEZA (2)

A criança tinha os olhos feitos de cera a derreter as lágrimas de tristeza. As suas mãos eram duas cruzes pregadas no peito e a sua língua como um badalo repenicava a pergunta ao céu.
- Mas porquê eu, meu Deus?
A senhora Técnica da Segurança Social compunha o cabelo num gesto de vaidade, o advogado traçava passos para a frente e para trás num percurso irrequieto e impaciente, de quem não tem tempo a perder, e os pais, que tinham fugido depois do parto, deviam andar perdidos por entre as ruas deste mundo de sentimentos cruéis.
12 anos a viver numa Instituição, invisível ao apelo dos afectos, na espera inútil de ser adoptada. Mas o tempo, esse canalha que destrói ilusões, vai continuar a tecer teias de dor que vão envolvendo cada vez mais o corpo sem asas da criança, passarinho frágil abandonado na gaiola.
O oficial de justiça mordia os lábios e enterrava as unhas nas palmas das mãos, para conter o desespero de não poder gritar:

- Vá lá, apareça apenas um daqueles que tanto falam de amor e liberte esta menina das grades insensíveis e desumanas da vida.