sábado, 1 de abril de 2017

VENCER A MORTE

     

     E assim, num repente, as palavras silenciaram-se em mim. Era impossível escrever, falar e encontrar um objetivo e um significado para dizer o quer que fosse. O mundo? A vida? Eram um monstro que consumia a vontade e a esperança. E os meus melhores amigos morriam de depressão, suicidando-se com drogas e cordas e no profundo dos poços. Com quem falar? Como explicar? O que perguntar? Tinha a dor a explodir-me na alma e os olhos estavam cegos de chorar. É difícil viver assim contando os corpos e os ramos de flores depositados sobre as campas. Foi então que procurei fugir para evitar ser o próximo, já que a angústia e a tristeza me acompanhavam, me perseguiam, me ameaçavam. Desta forma encurralado entre o silêncio e o desespero, pensei que a luz se ia apagar repentinamente na mais completa escuridão dos meus sentimentos. Mas, subitamente, o sol rasgou janelas no azulado do céu e iluminou o caos do meu dia a dia. E vi, tão claramente, o interior da minha família e o AMOR que irradiava dela e decidi voltar à luta, a enfrentar a morte, o desânimo, o sofrimento, a violência e as consequências de todos os dias, porque ainda não cheguei ao fim do meu caminho e lá no fundo ainda existe muito para fazer por mim e pelos outros.
     Por isso voltei a escrever, a deixar este texto, como prova de que a melhor forma de honrar as mortes dos que nos foram queridos, é vivermos sem fantasmas, tentando AMAR e sobreviver com ALEGRIA.

              Fotografia da autoria de MARIA FILIPE.