sexta-feira, 20 de março de 2015

O PRIMEIRO SOLUÇO DA CRIAÇÃO




O PRIMEIRO SOLUÇO DA CRIAÇÃO

       As palavras para eles já eram só como fumo que tornava asfixiante a atmosfera do seu relacionamento. Haviam chegado ao ponto em que já não suportavam ouvir-se.
        Como fora possível que duas pessoas que tanto se amaram, que fizeram juras de Amor, que partilharam o corpo e a alma, que se conheceram até ao pormenor mais profundo da intimidade, tivessem criado tanto ódio entre si e fossem agora, nas suas atitudes, cobardes e rancorosos desconhecidos que discutiam numa briga de rua.
        Mas eles não podiam ignorar que o seu Amor existira e inchava agora no ventre dela. Depois de todo o fogo do Amor se ter transformado em cinzas, renascia ainda uma fagulha de vida. E era esse o motivo do lume ardente da sua discussão.
        Ela não queria ser uma mãe solteira. E ter que lutar, sem meios, para que o seu filho pudesse ter todos os direitos e ser uma criança bem tratada e feliz. Por isso queria o aborto.
        Ele afirmava que o seu maior desejo era ser pai. Amar e respeitar essa criança com toda a entrega, dedicação e dádiva, pois no interior do embrião corria o sangue do seu sangue.
        Mas as palavras de ambos eram apenas barulho. Gritos que assustavam os pássaros que esvoaçavam das árvores do Parque. Que lembravam até disparos de dois inimigos num duelo.
        A manhã começava a nascer. Os primeiros raios de luz rasgando a seda das nuvens e se acendendo nas gotas de orvalho que brilhava sobre a relva. Só os olhos deles carregavam ainda a escuridão da noite. As olheiras, como um lago negro, ameaçando a visão bela e jovem dos seus rostos.
        Para eles a vida começava verdadeiramente ali, naquele preciso momento, em que tinham que ser responsáveis, adultos, sensíveis, humanos e decidir sobre a morte.
        Matar o filho deles no desespero, sem saber no futuro qual o peso e a pena criminosa das suas consciências. Matar o filho que eles haviam feito conscientes de tanto Amor.
        Ela queria a morte do embrião e ele ansiava pela salvação daquela vida.
        Os dois tão sós. Como se no mundo somente eles existissem e à sua volta toda a Natureza esperasse para continuar a sua criação.
        Os dois, só eles, de sentimentos divididos, enfrentando a dúvida e o pecado, as mesmas mãos e os mesmos corpos que se amaram, decidindo sobre a vida ou a morte da criação do seu Amor.