sexta-feira, 29 de maio de 2015

À ESPERA DA SAUDADE

Esta rosa é para ti. Sem nenhuma saudade, mas com alguma nostalgia.

             Não, eu não quero comprar o teu corpo. Tens um rosto bonito e um perfil atraente e deves merecer o que pedes por uma hora de sexo. Não, não penses que te julgo. Faço apenas esta observação para que percebas que para mim és simplesmente uma Mulher. O que fazes da tua vida é uma decisão tua. Só quero falar. Talvez se me escutares eu possa desabafar a minha solidão. Possa até pagar-te uma cerveja e uma carteira de cigarros e assim, enquanto fumas e bebes, tenhas alento para ouvir as minhas confissões. É evidente que não és padre ou psicóloga, mas deves compreender que há horas em que é urgente desabafar. É claro que não vives de conversa fiada, não precisas dizer-mo. Mas então, porque motivo queres inverter a situação e falar-me da tua vida. Agora que começou a chover sobre nós, desabrigados neste banco da praça. Dizes-me que vives à espera da saudade. Dos momentos em que foste criança e jovem e apenas pensaste no futuro, deixando fugir o presente, as brincadeiras, a inocência e o tempo. Da forma como já mulher continuaste a imaginar que era possível todas as tuas ilusões se realizarem e adiaste a oportunidade do Amor, do casamento e dos filhos. Da tua repetitiva vivência à espera da saudade de tudo o que não fizeste no seu devido tempo. À espera da saudade da pessoa que não foste, porque estavas demasiado ocupada e preocupada com a vida que ia passando tão rapidamente, ao ponto de te esqueceres de ti própria. Só porque não aprenderas ainda a viver o presente.
        “Sou um inseto insignificante na chuva!”. Foram as derradeiras palavras que deixaste, cruéis como uma condenação. Enquanto davas uma última tragada e suspiravas o fumo que certamente teria o sabor da terra e da chuva de todas as estações dos anos que se sucederam sobre ti, enquanto continuavas somente à espera dos sonhos, das frustrações, das alegrias do tempo que deixaste passar, inútil como o cigarro que naquele momento se desfazia entre os teus dedos.
        Fizeste-me um carinho no rosto e partiste, arrastando as asas molhadas pela lama do caminho.
        Não o soubeste, porque não me deixaste falar sobre mim, mas as tuas palavras salvaram-me a vida. Por esse motivo, quase todos os dias e muitos anos depois continuo a recordar-te. Contigo aprendi que não quero ser “um inseto insignificante na chuva”, tentando apenas sobreviver à espera da saudade. Procuro fazer hoje tudo o que me faça feliz, para que amanhã não fique preso nas teias da tristeza do passado e do futuro, com as asas desfeitas pelas lágrimas que são a chuva mais profunda da alma.

(Dedicado à MULHER que me salvou, quando eu andava a morrer de saudade pelas ruas do Rio de Janeiro).


Agradecimentos mais uma vez a Maria José Filipe pela sua AMIZADE  e pela magnífica fotografia. E a todos os Amigos/Leitores que no Google +, no blog e no hangout, em Portugal, no Brasil, na Alemanha, na Rússia, nos Estados Unidos da América e pelo mundo fora, me vão dedicando a sua atenção e presenteando com o seu carinho.