quinta-feira, 25 de abril de 2013

A LIBERDADE DA MEMÓRIA





      A convite da Biblioteca Ruy Gomes da Silva, da Chamusca, estive hoje presente no evento "Poesia e Liberdade", inserido nas comemorações do dia 25 de Abril.


     Como entendo que o Homem só é verdadeiramente livre no pensamento e na sua memória, apresentei um texto de prosa poética que reflecte o espaço real da minha infância, adolescência e juventude, perseguidas por um tempo adulto, imaturo, cruel, autoritário e opressivo, de uma sociedade sem remorsos de torturar pétala a pétala os cravos da liberdade.



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A Liberdade da Memória

Nasci no dia 06/01/1963, na Vila da Chamusca, no leito do Ribatejo. A minha infância, adolescência e juventude foram como que pintadas numas pinceladas de natureza: a arquitectura de traços simples e tons brancos, harmonizava-se com as aguarelas verdes e castanhas da charneca e da lezíria e, no centro de tudo, a unir todas as coisas, como a profundidade de um abraço a irrigar as raízes da vida, o coração do Tejo.
      A Vila era um lugar de silêncio e tranquilidade que se tornou quase surdo, quando as pessoas e as suas palavras emigraram nos comboios, ou nas camionetas e carros dos “passadores”, a salto para França e outros países da Europa, para livres e condignamente construírem os seus ninhos familiares, que na sua Terra só as aves, como as cegonhas, tinham a liberdade de construir, nos eucaliptos situados a norte da Chamusca e que bordejavam a Estrada Nacional 118.
    Surdez que se tornou mais audível, quando os homens jovens foram arrancados da Terra, despejados sobre os convés dos navios e depois, de olhos salgados de mar e de lágrimas, foram plantados nas terras inóspitas e inférteis de África, onde apenas a guerra e a morte subsistiam.
        Entretanto, no dia 25 de Abril de 1974, deu-se a Revolução e, como uma cheia de liberdade, galgou o Tapadão, embebeu-se pelos campos e veio beijar os pés da Terra Branca.
     Como cegonhas, os emigrantes num gesto de asa esvoaçaram para a Chamusca onde voltaram a aninhar-se nos seus lares.
    Os militares regressaram felizes, com a esperança viva nos corpos desarmados.
         O sol brilhava tão intensamente, como um coração a acender de sangue as candeias da alma, e tudo parecia tão perfeito como a paisagem vista dos olhos do Mirante.
          Hoje, neste profundo labirinto humano, onde o passado, o presente e o futuro se confundem, se repetem e se perdem, como cegos tacteando sombras sem saída, só os pormenores e sentimentos da infância, adolescência e juventude vivem livres na minha memória, o único espaço que ainda resiste à traição do tempo e à ditadura de um mundo sem liberdade.