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segunda-feira, 15 de junho de 2026

CHEIRAS

 





Cheiras as esquinas da casa,

os estofos dos carros,

o chão,

os cantos e o tampo das mesas, 

os lavatórios,

a box do chuveiro,

os tapetes

e até enfias a cabeça no fundo da sanita.

Cheiras a escada,

as peças do jogo de xadrez,

debaixo da cama,

nas baínhas dos lencóis

e enfias até a cabeça nas fronhas,

até quase sufocares na espuma das almofadas.

Cheiras as colheres,

os garfos,

as facas, 

os pratos, 

os panos de cozinha

e enfias até a cabeça

no lodo do caixote do lixo.

Cheiras

e sempre que o fazes

lanças os teus olhos desesperados

para além dos vidros das janelas,

do tecto,

do céu,

da infinita esperança

de onde ele possa surgir,

da réstea do seu cheiro 

que se vai desvanecendo,

e enfias até a cabeça

no funil do universo,

para tentares cheirar a fragrância 

que ainda escorre do seu eclipse.


Cheiras,

até o teu olfacto se extinguir

e enfiares a cabeça,

profunda e profusamente,

até à sobrevivência das memórias

te arderem no coração e nos olhos,

até às cinzas da saudade.


domingo, 31 de maio de 2026

 



POETA despoetizante (Construtor de Jardins II)


Renascem jardins 

no tempo eletrónico.

Folhas,

plantas,

solo,

somente mãos,

amor

e

natureza.

Belos,

indiferentes

à beleza digitalizada

efémera

da IA,

onde podes ter e ser

tudo o que não tens

e que não és,

construíndo ilusões e sonhos,

da mais pura e natural sobrevivência.


(Em memória do Armindo, do "Quim", do "Joca" e do "Coragem". Até já Amigos".










POETA despoetizante (Construtor de Jardins I)


Por vezes é necessário 
desconstruir versos para construir jardins.
9 toneladas de pedra e
20 anos a semear,
plantar,
regar,
sachar, 
podar,
colher
e nasceram árvores 
e folhas
e frutos
e ninhos
e pessoas
e pássaros
e gerações de filhos
e de crias,
a brotarem ano após ano
dos ramos eternos da vida.

Sem rimas e versos,
teorias ou filosofias,
de palavras rebuscadas,
de duvidosos sentimentos,
ou profilaxias,
a morrerem efémeros nas páginas amaralecidas,
sem um cheiro verde de hortelã
mas somente um enjoo de bolor.

Se o poeta fosse um poeta
certamente teria menos necessidade
de trabalhar a inventar
e a poesia seria mais simples e natural
do que um bouquet de palvras,
artificial.

(Em mémoria dos meus avós Leonilde e Américo. Até já meus Amados.)

domingo, 3 de maio de 2026

UM NOVO ALFABETO DO SILÊNCIO

 O silêncio,

como o badalo vibrante de um sino,

ecoa nos tímpanos mais remotos da Terra.

As pessoas são como pedras na paisagem,

as bocas cosidas pela inconstância do vento.

Os pássaros pousam sobre estas estatuetas,

tranquilmente empoleirados na rigidez triste

e silenciosa delas.


São poderosas as máquinas que constroem as palavras,

novas como um alfabeto de propaganda,

e geram nos corpos o medo da ignorância.

Por isso eles ficam inertes a tentar identificar,

de cabeças inclinadas, 

o significado oculto desses sons.


A vida fica assim paralisada,

só à espera de entender esta linguagem morta.

O leite secando nas mamas infecundas,

a consciência balindo como uma ovelha mansa

e o amor tão intensamente silencioso

que não tem um gesto de expressão.

A alegria parece esquecida,

como um sentimento de ocasião.



 





DEBAIXO DAS FIGUEIRAS


Este é o momento

em que tens que esquecer

que já foste um operário,

um atleta,

um escritor

e inúmeras outras coisas.

Aqueles momentos em que pensavas

que eras o ás de qualquer baralho

nos jogos psicadélicos da vida.



Agora foca-te naquilo que és, 

pois só assim podes chegar a amanhã.


Agora foca-te,

nos gatos,

nas galinhas 

nos ovos,

na agricultura das tuas mãos

a brotarem da Terra.


Tudo como sempre quiseste,

com Deus sentado debaixo das figueiras

na imagem final do filme.


 

Cego 


Quando lhe disseram que ele estava cego,
tentou clarear a mente para melhor iluminar os restantes 4 sentidos.
Mesmo sabendo que via
mas que ninguém era capaz de ver 
para além das brumas da sua cegueira,
ele modificou todos os seus passos 
para se adaptar à bengala das veredas.
Mesmo sabendo que caía
e caía muito,
talvez demasiado,
continuou a levantar-se e a olhar 
firmemente,
para a curva do horizonte 
onde se apaga a perspetiva do mar.
E revendo tudo aquilo que já havia visto,
teve a visão nítida,
clara,
de todos os raios de sol
a arderem numa derradeira chama,
apagando-se na beleza tranquila do pôr do sol.