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segunda-feira, 15 de junho de 2026

CHEIRAS

 





Cheiras as esquinas da casa,

os estofos dos carros,

o chão,

os cantos e o tampo das mesas, 

os lavatórios,

a box do chuveiro,

os tapetes

e até enfias a cabeça no fundo da sanita.

Cheiras a escada,

as peças do jogo de xadrez,

debaixo da cama,

nas baínhas dos lencóis

e enfias até a cabeça nas fronhas,

até quase sufocares na espuma das almofadas.

Cheiras as colheres,

os garfos,

as facas, 

os pratos, 

os panos de cozinha

e enfias até a cabeça

no lodo do caixote do lixo.

Cheiras

e sempre que o fazes

lanças os teus olhos desesperados

para além dos vidros das janelas,

do tecto,

do céu,

da infinita esperança

de onde ele possa surgir,

da réstea do seu cheiro 

que se vai desvanecendo,

e enfias até a cabeça

no funil do universo,

para tentares cheirar a fragrância 

que ainda escorre do seu eclipse.


Cheiras,

até o teu olfacto se extinguir

e enfiares a cabeça,

profunda e profusamente,

até à sobrevivência das memórias

te arderem no coração e nos olhos,

até às cinzas da saudade.