Cheiras as esquinas da casa,
os estofos dos carros,
o chão,
os cantos e o tampo das mesas,
os lavatórios,
a box do chuveiro,
os tapetes
e até enfias a cabeça no fundo da sanita.
Cheiras a escada,
as peças do jogo de xadrez,
debaixo da cama,
nas baínhas dos lencóis
e enfias até a cabeça nas fronhas,
até quase sufocares na espuma das almofadas.
Cheiras as colheres,
os garfos,
as facas,
os pratos,
os panos de cozinha
e enfias até a cabeça
no lodo do caixote do lixo.
Cheiras
e sempre que o fazes
lanças os teus olhos desesperados
para além dos vidros das janelas,
do tecto,
do céu,
da infinita esperança
de onde ele possa surgir,
da réstea do seu cheiro
que se vai desvanecendo,
e enfias até a cabeça
no funil do universo,
para tentares cheirar a fragrância
que ainda escorre do seu eclipse.
Cheiras,
até o teu olfacto se extinguir
e enfiares a cabeça,
profunda e profusamente,
até à sobrevivência das memórias
te arderem no coração e nos olhos,
até às cinzas da saudade.
