sábado, 24 de agosto de 2013

SER PAI

SER PAI

         Ser pai é certamente a tarefa mais difícil do mundo. É perdermos, com coragem, a nossa liberdade. Deixarmos de estar presos à consciência livre do nosso egoísmo. Mesmo sabendo que mais lá à frente, na encruzilhada do tempo, os nossos filhos irão fazer outras escolhas, avançar a uma velocidade já insuportável para nós, afastar a sua juventude cheia de sonhos, de desejos e de vida, enquanto ficamos a vê-los partir, com o corpo já cansado e velho, mas com a mente tranquila de quem cumpriu a missão do Amor, envelhecendo para tornar jovem a esperança dos filhos.
Mesmo que muitas vezes me levante quebrado, devido ao esforço, às obrigações, às responsabilidades e aos problemas que os meus filhos me impõem, não subsiste em mim qualquer arrependimento de ter sido pai. Mesmo que o mais pequeno, de cinco anos de idade, por ser uma criança hiperactiva, me deixe à beira do desespero com as suas birras constantes e inesgotáveis, quando já só penso em dar-lhe umas palmadas, tento ter um derradeiro momento de lucidez. E nesse preciso instante, recordo que em algum lugar do passado também já fui assim: já parti copos, já entornei o sumo na mesa e na roupa, já exigi os gelados, os bolos, os carrinhos, as bolas, os balões, uma volta no carrossel e um sem número de tantas outras coisas que eu achava normal poder ter e fazerem parte dos direitos da criança:  errar para aprender e pedir para crescer.
Bem sei que estou a ficar velho. Que o tempo não se repete. Que possivelmente os meus filhos nunca agradecerão a minha dedicação, e irão provavelmente até culpar-me do que fiz ou não por eles, mas isso que importância tem. De uma forma ou de outra o tempo teria passado sempre ao mesmo ritmo, eu envelheceria irremediavelmente, e o argumento de gozar mais ou menos a vida não passa de uma ilusão, porque não podemos congelar os minutos e os momentos de prazer. Só ficam as recordações a esfarelarem-se na nossa mente e por vezes já não temos a certeza, nem retemos sequer o sentido ou a forma, de como é que, efectivamente, essas situações remotamente  agradáveis sucederam.
Pelo contrário, um filho é algo que permanece. Que está ali para nos provar que vivemos a vida. Que fizemos algo mais que ser uns simples egoístas, preocupados com prazer imediato: viajar, possuir mais poder e bens materiais, ter uma incontinência de relações sexuais e permanecermos belos e jovens.
Não tenhamos ilusões! Tudo se esvai! E a conta final, a aritmética entre o que ganhámos ou perdemos, com ou sem filhos, tem um resultado improvável e surpreendente.
Por isso, quando ontem à noite o meu filho mais pequeno fez uma birra para ir para casa jogar no computador, e nós, os pais, queríamos ficar no baile a dançar,  provavelmente roubou-nos um momento de prazer e liberdade, mas permitiu que eu e a minha mulher aos regressarmos mais cedo fizéssemos Amor, o que certamente não sucederia se regressássemos de madrugada suados e cansados.
E às sete da manhã quando o menino me estremunhou a noite de sono por ter feito chichi na cama, deu-me a oportunidade de escrever este texto que eventualmente não escreveria.

Certamente ao ter filhos perdi muita da minha liberdade, tive muitas preocupações e envelheci mais rapidamente mas, sem dúvida, com eles tenho mais afectos e alegria e desfruto mais a vida.

                                                  Chamusca, 19/08/2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O CHEIRO DA VIDA

O CHEIRO DA VIDA
         Houve um tempo em que eu estava muito só, numa cidade enorme, rodeado por milhões de pessoas, num país tão distante do meu que nem as recordações me conseguiam aproximar dele, antes me aproximavam mais da solidão. Por vezes andava sem destino pelas ruas cheias de mendigos, ladrões, chulos, prostitutas e de toda a espécie de pessoas que constituem a canalha humana, para escutar o barulho, os convites sexuais, as palavras irritadas que mordiam a noite, os risos alcoólicos que embebedavam as estrelas e faziam o olhar do céu ter um brilho mais intenso.
            Quando se está sozinho existe uma fé ou uma esperança que se apodera do nosso íntimo, uma crença que o acaso fatalmente nos enviará uma companhia.
            Outras vezes, perseguindo esta intuição, descia aos corredores profundos do Metro e enfiava-me na jaula de uma carruagem, como numa roulote itinerante de um circo, observando o espectáculo da fauna humana. Passava horas seguidas a viajar por entre os túneis da tristeza à espera do encontro com uma coincidência feliz.
            Um dia, uma mulher, ainda jovem, veio sentar-se a meu lado num dos bancos da estação. Cheirava a lixo, fétido e comum a todos os corpos sujos e húmidos, a suor e aos temperos azedos dos restos das comidas despejadas nos contentores das traseiras dos restaurantes.
            Com nojo, pensei em fugir. Porque só se foge do que é insuportável. Mas ela interrompeu-me essa vontade, pedindo-me um cigarro. Respondi-lhe que não fumava. De seguida implorou-me a dádiva de umas moedas que, de momento, eu não tinha. Por último pediu-me de comer e o seu corpo magro fez-me lembrar a dor que eu próprio já sofrera quando passara fome.
            Fiquei aflito entre a necessidade de a ajudar e alimentar e a perspectiva indesejável de para o fazer, ter que lhe abrir a porta da minha casa. Venci o receio do seu corpo impestar a intimidade do meu lar e puxando a cadeira pedi-lhe que se sentasse à mesa e servi-lhe o queijo, o leite, o pão e as bananas, todos os alimentos que possuía e que se destinavam a ser o meu jantar. Ela devorou-os com o desejo, a violência e a inconsciência próprias dos esfaimados. Roeu-me o vazio angustiante do meu estômago, mas senti-me confortado pelo prazer aceso no rosto da mulher.
            Desejei que a mendiga se fosse embora, para me poder deitar e aconchegar no sono, rapidamente, a barriga vazia, mas ela pediu-me para dormir na minha cama. Senti a raiva e o vómito inundarem-me o sangue e a garganta e desejei gritar-lhe: «Depois de tudo o que já fiz por ti, ainda queres humilhar-me, sua porca, deitando o esterco do teu corpo sobre os lençóis limpos, contendo o cheiro da minha intimidade!?» Mas contive-me. Deixei-a até escolher o lado da cama onde deitar-se. Por fim deitei-me e, surpreendentemente, depois de tantas noites de insónia dormi profundamente. Quando acordei o sol já ia alto e a mulher tinha partido. O mau cheiro que deixara já não o sentia tão desagradável e inesperadamente percebi a verdade: nada deixa o homem mais intranquilo e desesperado do que sentir-se sozinho e nada cheira pior do que o podre da solidão.
                                                                                        Rio de Janeiro 1988

                                                                                       Monte Gordo 2013 

sábado, 17 de agosto de 2013

LIBERTA-TE, PORQUE ESTÁS VIVO!


LIBERTA-TE, PORQUE ESTÁS VIVO!

             Eu gostava que te amasses. Que não andasses constantemente a chorar com pena de ti próprio. Bem sei que viver talvez seja a tarefa mais difícil do ser humano, mas se estás nesta Terra porque razão não vives? Tens falta de dinheiro, de Amor, de auto-estima e estás triste? Meu pobre privilegiado que tens a liberdade de escolher o teu caminho e enfias o pescoço no nó mais apertado da tua alma. Liberta-te! Abre as janelas e as portas do teu corpo e dos teus sentimentos e vive! A vida apenas te pede que sejas um ser humano de verdade, com defeitos e virtudes, mas com um coração enorme como a lua cheia a iluminar a noite dos perdidos. Vá solitário, ferido, varre essa solidão do teu espírito e encara a higiene da verdade:
         Se não te amares, a quem serás capaz de amar?  Todos temos problemas! Ou pensas que és só tu? A sobrevivência depende apenas da tua vontade, mas se continuares apenas a chorar e a lamentar-te, o teu dia-a-dia será somente um horizonte negro, uma tempestade, onde o sol asfixiará no útero infértil das nuvens.
               Liberta-te, porque estás vivo!

                                      Chamusca, 17/08/2013


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O MENINO JESUS

O MENINO JESUS

      O Menino Jesus nasceu no curral de um pasto dos Açores. Os seus pais viviam do leite da ordenha das vacas que, à noite, ao dormirem entre elas, os aqueciam com o seu bafo quente, quando o vento soprava de norte e se enfiava por entre as rachas das tábuas e os açoitava com chicotadas de frio.
      A família vivia num mundo perdido, entre a floresta e o monte, no seio da natureza e da simplicidade, longe dos homens que inventam leis para amarrarem a vida em coletes de força da opressão.
     O Menino Jesus não tinha olhos azuis, nem era loura a sua pele, mas o seu berço era uma manjedoura e o seu tecto eram as estrelas que cobriam o telhado do céu. A sua vida era tão singela, como a dos pássaros que crescem no ninho. Os seus pais esvoaçavam constantemente em seu redor num chilreio de ternura. À hora certa e biológica a mãe depositava o mamilo entre as gengivas ansiosas do Menino, numa mamada carinhosa. A família era feliz.
    Até que um dia os homens fardados trouxeram as armas e atingiram o sofrimento dos pais, ferindo-os gravemente com a retirada da criança que, segundo as autoridades, corria perigo de vida, sobrevivendo num ambiente miserável.
     O Menino foi viver para uma instituição, depois do tribunal aplicar uma medida com vista à sua futura adopção. Os pais ficaram inibidos de o ver e ele ficou só, nas mãos da lei.
    Várias foram as famílias que o quiseram adoptar, para depois o rejeitarem. Muitas foram as instituições, por onde os senhores que trabalham com os códigos das leis arrastaram o seu corpo e a sua presença inocente e castigada.
    Por fim, aos 15 anos de idade, surgiu uma luz, qual estrela, nos olhos negros do céu e a alegria abriu um rasgo luminoso de esperança. Um casal queria fazer o seu apadrinhamento civil. Dois dias, somente, bastaram para que o “padrinho” expulsasse de casa e atirasse para a rua o jovem Jesus, como um cão a quem não se reconhecem direitos.
      À falta de instituição o pobre moço foi despejado num asilo, entre a solidão e o silêncio da velhice. Apesar de tudo, paciente, dócil, meigo e amigo, é um anjo no carinho aos idosos e um estudante exemplar.
    Qual será o futuro da sua vida? Só provavelmente Deus o saberá. Num mundo tão violento, insensível e cruel, por ora ele vai sarando as suas feridas com o espírito tranquilo e sereno da paz.
            Só peço, imploro,
            Menino,
            Homem,
            Jesus,
            que aos 33 anos
            não te espetem na cruz. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AMA!

AMA!

Ama!
Porque o tempo passa
sobre o teu coração envelhecido
e na juventude da paixão
crescem cabelos brancos
e rasgam-se rugas
no rosto da ilusão.

Ama!
Agora,
que o noivado dos teus sentimentos
se pode casar
com a esperança e a alegria
do teu espírito jovem e feliz.

Ama!
Antes que na raiz da tua alma
cresçam apenas as recordações
e o teu Amor fique só,
ferido,
sofrendo
a dor terminal da solidão.


                             Chamusca, 04/08/2013

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

CRIMINOSA!

CRIMINOSA!

Quando as folhas
das árvores caíssem
e os pássaros dormissem
sobre os poleiros nus dos ramos,
prometeste que voltavas
para me aquecer
com a beleza e o carinho
do manto verde do teu corpo.
Em vão me sentei
à tua espera,
a olhar a nudez
feia das árvores
e os pássaros
como pedras frias
pousadas nos braços negros
e desesperados
da ramagem solitária do dia-a-dia.
CRIMINOSA!
Roubaste-me a esperança,
assaltaste-me o cofre feliz da alma
e enfiaste a dor
como a lâmina de uma faca
até ao fundo do meu coração.
CRIMINOSA!
Deixaste-me aqui a morrer,
lentamente,
sem qualquer assistência,
num requinte de violência,
recordando os momentos apaixonados
de um Amor assassinado.


                                               Chamusca, 31/07/2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Menino das Rosas

Bol'shoye spasibo chitatelyam, kotoryye sleduyut za mnoy v Rossii etot blog iblog "Corações da Chamusca "

O Menino das Rosas

Por onde andou este espinho?
Que vento forte o arrancou do caule
para vir espetar-se neste bairro de lata?
As mãos feridas de sangue,
as rosas vivas e sem sede
bebendo do sacrifício das suas mãos
desabrochando de pétalas e perfume.
Às 4 da manhã,
cansado de percorrer a cidade
tentando vender as flores aos namorados
de um qualquer romance de insónia,
esta pequena rosa negra e murcha
desmaia de sono
sobre as pedras brutas da calçada,
plantando ramalhetes de dor
nos olhos infelizes da lua.

Que jardins fizemos deste mundo?
No qual as crianças morrem de fome e desamor,
as pequeninas mãos floridas
implorando que lhes comprem as rosas
que nem por milagre se transformam em pão. 

pg. 9, do meu livro de poesia "Redes"; Zaina Editores, 2009

domingo, 28 de julho de 2013

POR ONDE ANDARÁS AGORA?




        
    A chuva batia com dedos grossos contra o vidro da janela, pedindo com urgência para entrar e se abrigar do tempo. Escutávamos o seu desespero rebentar em estilhaços que sangravam pela vidraça, com os nossos corpos molhados de saliva e de paixão.
        Naqueles momentos, recordo-me, não existia frio que gelasse a nossa nudez, nem temporais que impedissem os nossos encontros, urgentes e corajosos, capazes de enfrentar qualquer situação mais adversa ou violenta, com a paz feroz de nos amarmos.
        Havia sempre uma música suave a acompanhar a coreografia dos nossos gestos, na dança improvisada do desejo, e a cama era o palco ideal da nossa representação perfeita, verdadeira e feliz do Amor.
    Depois, tudo passou como um aguaceiro breve. Secou a terra dos nossos sentimentos e o que restou foi este pó que se agita, de quando em vez, no vento da memória.
       Por onde andarás agora? Pergunto ao violino que toca no interior do meu silêncio, aquele mesmo trecho que nos emocionava nos momentos apaixonados e infinitos.
       Por onde andarás agora? Que músicas escutarás na tua vida e em que braços dançarás a valsa do Amor?  

Comentários:

Amigo Carlos, um poema com muita saudade e nostalgia que adorei. Beijos com carinho.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

NÃO TENHAS MEDO

NÃO TENHAS MEDO


Não tenhas medo
do fantasma com lágrimas
que assusta a alegria
resistente dentro de ti.
Da caveira com dentes de ódio
que devora a tua alma
despedaçando em pedaços
a carne viva dos teus sentimentos.
Liberta-te desse véu
de ossos da mentira
e das grades da cela
da tua vida
torturada de medo
e abre-te ao espírito da luz
com o coração iluminado de esperança.
Não tenhas medo que digam
que és um vagabundo,
ou um louco,
por semeares a ternura
nos canteiros de pedra do dia-a-dia.
Vai,
corre,
sê doido,
despenteia as nuvens do sonho,
afaga as madeixas da ilusão,
não tenhas medo da loucura,
de viveres num pesadelo,
e jamais conheceres
 e acariciares o Amor,
que está plantado ali,
NÃO O VÊS?,
apaixonado e corajoso,
mesmo ao alcance da tua mão.

                                            Chamusca, 22/07/2013

domingo, 21 de julho de 2013

SIAMESES


SIAMESES

Agora que o teu corpo
se entorna pelo meu
numa transfusão feliz,
não há longes, 
nem distâncias,
nem tão somente ausência.
Existe um só corpo,
o nosso corpo.
Um só espírito,
o nosso espírito.
Não és só tu,
nem sou só eu,
somos nós.
Assim, como siameses,
mergulhados no leito
do nosso ventre gémeo, 
alimentados pelo cordão umbilical
do Amor.

                                                  Pg. 73, do meu livro de Poesia com o título "Redes", 2009, Zaina Editores.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

GRÁVIDO, O AMOR

GRÁVIDO, O AMOR

O nevoeiro cobria os olhos da janela,
como teias de açúcar,
onde o teu corpo nu
adoçava o olhar,
no sabor a desejo da manhã.

Admirei-te,
o girassol do rosto,
o voo dos dedos 
colhendo as maçarocas do cabelo,
a polpa da pele ruiva
cobrindo as suculências da carne.

Amei-te,
no cheiro a leite do silêncio,
no choro surpreendido do teu íntimo,
no balançar do berço do teu ventre.

O Amor era ainda, 
somente,
uma criança que crescia, 
feliz,
na infância do teu útero.

                                             Chamusca, 19/07/2013


terça-feira, 16 de julho de 2013

E SE O TEU AMOR MORRER?


Thanks to all the readers who follow me in the United States and throughout the world.
(Obrigado a todos os leitores que me seguem nos Estados Unidos da América e por todo o mundo.)

      Um agradecimento especial para os portugueses e para os brasileiros.


E SE O TEU AMOR MORRER?

Se um dia
deixares de costurar o carinho
no tecido do meu corpo,
o que irão ser meus sentimentos
senão farrapos
da alma desgraçada
e nua de um mendigo,
a viver de memórias,
que são como um estender de mãos
à caridade da esperança
e recolhendo-se feridas do vazio
com a pobreza do nada.

Se o teu amor
por mim morrer,
dá-me, por favor,
a esmola de um derradeiro beijo,
para que na minha boca
brote, eternamente,
a lembrança da saliva fresca
 do passado feliz,
do nosso imortal desejo.

                                     Chamusca, 15/07/2013

sexta-feira, 12 de julho de 2013

NUNCA FECHES A PORTA

Bol'shoye spasibo chitatelyam, kotoryye sleduyut za mnoy v Rossii.
(Muito obrigado aos leitores que me acompanham na Russia)
NUNCA FECHES A PORTA

Quando partires
não feches a porta.
Deixa o teu coração aberto
de par em par,
sem trincos,
fechaduras,
cadeados,
ou qualquer ferrolho
que aprisione os teus sentimentos.
A vida é um perpétuo movimento
de portas que se abrem
e se fecham,
num rangido de sangue
que atravessa a soleira do dia-a-dia.

Não te feches,
porque mesmo as paixões mais quentes
íntimas e nuas,
podem não sobreviver
à maçaneta do tempo
que se abre para a solidão das ruas.
pão do Amor,
ferido,
quase nunca cicatriza,
após o golpe fino,
seco e esfomeado do ódio.
E a casa cheia de afectos,
facilmente é arrombada
pela gazua da desilusão
que trazes escondida na alma de ladrão.

Por isso,
 quando te fores
deixa a porta aberta,
porque podes querer voltar a entrar
no turbilhão desta vida,
de chegadas e partidas,
de finais e recomeços,
de prazer e de queixume,
de trancas de desejo,
de algemas felizes de ciúme.

Tudo é possível!
Se acreditares que existe sempre
uma porta aberta,
uma mesa,
uma cama,
uma casa,
uma Família,
onde podes voltar a entrar
e a ser feliz.

                                          Chamusca, 11/07/2013

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A MARÉ DO AMOR


A MARÉ DO AMOR

O pestanejar dos teus olhos,
lembra o céu debruado
pela filigrana de penas
das asas das gaivotas
esvoaçando entre o rímel
do olhar cinzento do céu.
As tuas mãos são como conchas,
abertas sobre as dunas,
beijadas pela saliva quente
que escorre do sol.
O teu corpo podia ser
uma estátua de areia
esculpida pelos dedos perfeitos
da ressaca das ondas.
Mas,
tudo isto são apenas metáforas
e analogias,
para te construir de poesia,
a ti, que és deste mundo
de carne e de desejo,
e que sabes a sal
e que em vagas de espuma
varres o areal do meu corpo
numa maré cheia de AMOR.


                                                                 Riachos, 09/07/2013

segunda-feira, 8 de julho de 2013

CRIANÇAS



CRIANÇAS


Pai, mãe, ser humano,
procura no fundo da caixa de brinquedos
da tua infância,
no profundo rio da tua memória,
o desejo, o sonho
e a ilusão que te foi mais querida
e volta a divertir-te,
a apaixonar-te
e a acreditar que podes voar
na tua inocência de pássaro azul,
livre como as asas do céu.

Monta o triciclo,
a bicicleta,
o cavalinho do carrosel,
ou o pequenino barco
que te embala no leito do rio Tejo,
e deixa-te levar,
alegre,
no vento suave
e na correnteza das recordações.

Deita a tua cabeça mansa e tranquila
na almofada macia e carinhosa
do colo dos teus pais
e dorme e sonha,
protegido pelos braços felizes do Amor.

Se por acaso conseguires,
por um breve momento que seja,
voltar ao templo da infância,
verás que a criança é a verdadeira fé
e oração da vida.
Descobrirás que o teu filho
é a mesma criança que já foste,
o futuro pintado a aguarelas
no rosto do teu velho mundo.

Por isso, jamais esqueças,
ama as crianças,
porque elas são o princípio de tudo.
Elas são o que semeaste
e a colheita dos teus sentimentos.

Luta por elas,
dedica-lhes a tua coragem,
as tuas lágrimas
e o teu sangue,
como se fosse a última coisa que fizesses na vida.

Ama-as,
porque só elas são,
verdadeiramente,
a razão do teu AMOR!


                                            Chamusca, 04/07/2012


sexta-feira, 5 de julho de 2013

POR FAVOR, NÃO MATEM OS VOSSOS FILHOS!


POR FAVOR, NÃO MATEM OS VOSSOS FILHOS!


       Assassinar os próprios filhos ameaça tornar-se um crime vulgar e banal. Vivemos numa sociedade corrupta, egoísta e desumanizada, onde a guerra económica despedaça os direitos humanos.
        Andamos desorientados e perdidos, cegos e surdos, a lamber as nossas feridas como cães maltratados. A Família, a verdadeira estrutura social, desaba como uma casa podre e desfaz-se em escombros e pó. 
As crianças são mais uns quantos números desvalorizados, neste problema de raiz quadrada estúpida e errada.
         Os pais, os progenitores, transformaram-se em genitais e espermatozóides, infecundos de sentimentos, que descartam os filhos com nojo, como se as crianças fossem o peganhento esperma de um preservativo, que eles não tiveram a sensibilidade e a inteligência de usar. Mentem, fogem, desaparecem, despedem-se dos empregos para não pagar os alimentos aos filhos e não contribuírem  para   a sua formação e educação. Vão para os tribunais discutir questões mal resolvidas de sexo, cama e ódios da intimidade, ignorando a dor desgraçada das crianças que geraram.
          Dito tudo isto, vá lá, provem-me que o Amor não é apenas uma faca, um revólver, uma cápsula de veneno, um fogo posto.
         Provem-me que esta realidade é mentira, ou somente um devaneio diabólico da minha imaginação, porque eu amo a minha Família e quero ser feliz.
          Provem-se, amem-se, ou odeiem-se, mas, por favor, NÃO MATEM OS VOSSOS FILHOS!

quinta-feira, 4 de julho de 2013

MENINO

Menino


Deixa-me ver o mundo
com o teu olhar de estrelas
a iluminar o céu.
Deixa-me pedalar com alegria
na tua bicicleta de nuvens
saboreando em fatias
o prazer do vento.
Empresta-me por um breve momento
o brinquedo da tua vida,
para que eu possa ser simples
como o amanhecer dos dias
e voltar a ser eternamente feliz.


                                                                       Rio das Ostras, 18/07/2012


terça-feira, 2 de julho de 2013

HOJE VOU SER CRIANÇA

Hoje vou ser Criança


Hoje acordei
com o sonho velho de ser criança.
Vou soltar-me,
leve,
como um papagaio de papel
tricotando a bainha do céu.
Vou gatinhar ligeiro e suave
impulsionando os carrinhos
que aceleram pelo chão
e inventar lutas com bonecos
inofensivos,
como a paz pueril da imaginação.


Hoje vou ser livre
e correr atrás do vento,
de bola nos pés,
soltando gritos de vitória
a cada golo de liberdade.


Hoje vou esquecer-me que sou homem,
libertar-me das algemas da consciência
e lambuzar-me de todos os doces
numa gulodice infinita de ser menino.



                                                          Rio das Ostras, 24/07/2012


domingo, 30 de junho de 2013

OS MENINOS VENDEDORES DE ROSAS

     


       Nas últimas semanas o Brasil tem sido notícia em todo o mundo pelas manifestações e cenas de violência numa autêntica guerrilha social. Os governantes e os políticos em geral contestam as razões do povo e este por seu lado aponta o dedo à corrupção. De entre tantos comentários, análises, opiniões e entrevistas ainda não vi alguém perguntar a uma só criança, dos milhares que mendigam pelas ruas, o que ela pensa da realidade do seu país. Podem dizer-me que as crianças são imaturas, inocentes e até inconscientes do que as rodeia. Mas quando essas crianças andam pela madrugada vendendo pipocas, amendoim torrado e botões de rosa, demonstram que sabem mais sobre a vida e a sobrevivência do que a maioria daqueles que gritam e defendem nos palanques a sua honestidade e dizem ser DEFENSORES DOS DIREITOS HUMANOS.


Os Meninos Vendedores de Rosas


Os meninos vendedores de rosas
são como borboletas
pousadas nas corolas da noite
tentando vender o perfume da Primavera
com as suas pequenas mão floridas
num ramalhete de preces.

«Moço, me compre uma rosa.
  Por favor, moço.»

As suas vozes são frágeis pétalas
desfolhando-se do labirinto do sono
que ao caírem,
como pedras,
estilhaçam os sonhos das outras crianças
que dormem tranquilamente felizes.

Menino,
não digas mais nada
que ainda acordas a lua,
mas, sobretudo,  não continues a implorar
ferindo-me com os espinhos da tua tristeza,
porque eu vou comprar todo o jardim de rosas
da tua inocência,
para o plantar no coração do mundo.

                                               Rio das Ostras, 19/07/2012


Comentários no facebook


  • Victor Moedas isto está EXTRAORDINARIO os meus PARABENS e o meu m OBRIGADO um GRANDE ABRAÇO para ti GR AMIGO CARLOS SANTOS OLIVEIRA
  • Carlos Santos Oliveira Caro Amigo Victor fala-se tanto de dinheiro e de economia e esquecem-se as crianças e as famílias. Se os políticos pensassem mais nos direitos humanos o mundo poderia ser um lugar mais feliz. Eu fui um dos que comprei as rosas a estas crianças, mas só fiquei mais infeliz porque não foi possível comprar a minha consciência. Essa diz-me que terei que continuar a lutar muito mais por um mundo onde haja AMOR, de VERDADE!
  • Victor Moedas Os Homens Que o Sao e As Mulheres Que Tambem Teem um BOM CORAÇAO podem olhar com mais REALIDADE M FRONTALIDADE E MAIS AMOR so assim o MUNDO poderá mudar para MELHOR se todos olharmos na mesma DIRECCAO se conseguirá debelar esses FENOMENOS que cada vez HÀ MAIS obrigado amigo CARLOS conta com o meu APOIO um gr ABRAÇO
  • Julio Hipolito lindo amigo carlos! e cotinue mandando estas noticias prque sao mesmo necessarias o abraco amigo !

Olá amigo, vim descobri-lo num maravilhoso poema. Meninos vendedores de rosas, pétalas caídas na nossa sociedade tão injusta... Adorei. Abraço com carinho.