domingo, 30 de junho de 2013

OS MENINOS VENDEDORES DE ROSAS

     


       Nas últimas semanas o Brasil tem sido notícia em todo o mundo pelas manifestações e cenas de violência numa autêntica guerrilha social. Os governantes e os políticos em geral contestam as razões do povo e este por seu lado aponta o dedo à corrupção. De entre tantos comentários, análises, opiniões e entrevistas ainda não vi alguém perguntar a uma só criança, dos milhares que mendigam pelas ruas, o que ela pensa da realidade do seu país. Podem dizer-me que as crianças são imaturas, inocentes e até inconscientes do que as rodeia. Mas quando essas crianças andam pela madrugada vendendo pipocas, amendoim torrado e botões de rosa, demonstram que sabem mais sobre a vida e a sobrevivência do que a maioria daqueles que gritam e defendem nos palanques a sua honestidade e dizem ser DEFENSORES DOS DIREITOS HUMANOS.


Os Meninos Vendedores de Rosas


Os meninos vendedores de rosas
são como borboletas
pousadas nas corolas da noite
tentando vender o perfume da Primavera
com as suas pequenas mão floridas
num ramalhete de preces.

«Moço, me compre uma rosa.
  Por favor, moço.»

As suas vozes são frágeis pétalas
desfolhando-se do labirinto do sono
que ao caírem,
como pedras,
estilhaçam os sonhos das outras crianças
que dormem tranquilamente felizes.

Menino,
não digas mais nada
que ainda acordas a lua,
mas, sobretudo,  não continues a implorar
ferindo-me com os espinhos da tua tristeza,
porque eu vou comprar todo o jardim de rosas
da tua inocência,
para o plantar no coração do mundo.

                                               Rio das Ostras, 19/07/2012


Comentários no facebook


  • Victor Moedas isto está EXTRAORDINARIO os meus PARABENS e o meu m OBRIGADO um GRANDE ABRAÇO para ti GR AMIGO CARLOS SANTOS OLIVEIRA
  • Carlos Santos Oliveira Caro Amigo Victor fala-se tanto de dinheiro e de economia e esquecem-se as crianças e as famílias. Se os políticos pensassem mais nos direitos humanos o mundo poderia ser um lugar mais feliz. Eu fui um dos que comprei as rosas a estas crianças, mas só fiquei mais infeliz porque não foi possível comprar a minha consciência. Essa diz-me que terei que continuar a lutar muito mais por um mundo onde haja AMOR, de VERDADE!
  • Victor Moedas Os Homens Que o Sao e As Mulheres Que Tambem Teem um BOM CORAÇAO podem olhar com mais REALIDADE M FRONTALIDADE E MAIS AMOR so assim o MUNDO poderá mudar para MELHOR se todos olharmos na mesma DIRECCAO se conseguirá debelar esses FENOMENOS que cada vez HÀ MAIS obrigado amigo CARLOS conta com o meu APOIO um gr ABRAÇO
  • Julio Hipolito lindo amigo carlos! e cotinue mandando estas noticias prque sao mesmo necessarias o abraco amigo !

Olá amigo, vim descobri-lo num maravilhoso poema. Meninos vendedores de rosas, pétalas caídas na nossa sociedade tão injusta... Adorei. Abraço com carinho.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

CARTAS DE AMOR?

CARTAS DE AMOR?

         As pessoas andam de tal forma desnorteadas e desesperadas, que qualquer mentira lhes serve para acalmar os nervos e criar um cenário de ilusão.
         Nunca tanto como agora, o misticismo, a crença no sobrenatural, na bruxaria e cartomancia foram tão exacerbados.  
         Aproveitando a maré, onde nadam estes “patos”, o meu amigo Francisco teve a ideia absurda de se dedicar à batota com as cartas de tarot.
         Colocou um anúncio no jornal publicitando os serviços do “Mestre Estrela”, “A pessoa capaz de resolver todos seus problemas, abrindo-lhe os olhos para o futuro!” e, lentamente, começaram a cair-lhe na mesa do jogo, toda a espécie de duques e senas tristes da sociedade.
         Como convém e é de bom-tom ele recusa sempre qualquer dinheiro, com o argumento de que a sua intenção é a de ajudar o próximo com a clarividência que Deus lhe deu. Contudo, as pessoas insistem em presenteá-lo com o valor que entendem ser justo por ele lhes abrir as portas para um tempo de esperança.
         O cartomante, ou seja, o meu amigo Francisco, começou a levar o seu ofício tão a sério, que já deita as cartas para si próprio e só faz a sua vida em função do que elas lhe dizem, afirmando com convicção que “as cartas não mentem”
      Eu, que não acredito em videntes, bruxas, cartomantes, vampiros, lobisomens ou forças sobrenaturais e que não possuo qualquer poder paranormal, já sei qual vai ser o meu futuro: ter um salário cada vez mais curto, um horário de trabalho cada vez mais longo e apenas ter tempo para fazer uma visita de médico à minha mulher e aos meus filhos. É que sobre esta realidade os POLÍTICOS NÃO MENTEM, nem enviam cartas de amor.  

domingo, 23 de junho de 2013

A PAISAGEM DO AMOR






  • Quis escrever
    o mais belo poema para ti.
    E tudo era propício.
    O areal era um caminho de sol
    onde os meus pés
    deixavam rastos de calor.
    O céu,
    como um enorme pingo de tinta,
    tingira o Tejo
    onde as crianças mergulhavam
    os corpos azuis de alegria.
    O vento despenteava os salgueiros
    com o sopro dos lábios verdes
    e a passarada voava
    como folhas soltas pela brisa.

    Quis escrever
    o mais belo poema para ti,
    mas desisti dessa intenção.
    Para quê fazê-lo?
    Se a maior beleza da paisagem
    era o teu Amor à beira de água,
    simples
     e tranquilo,
    como um barco dentro de mim.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

HISTÓRIAS VERDADEIRAS (2)



O CIRCO DA TRISTEZA (2)

A criança tinha os olhos feitos de cera a derreter as lágrimas de tristeza. As suas mãos eram duas cruzes pregadas no peito e a sua língua como um badalo repenicava a pergunta ao céu.
- Mas porquê eu, meu Deus?
A senhora Técnica da Segurança Social compunha o cabelo num gesto de vaidade, o advogado traçava passos para a frente e para trás num percurso irrequieto e impaciente, de quem não tem tempo a perder, e os pais, que tinham fugido depois do parto, deviam andar perdidos por entre as ruas deste mundo de sentimentos cruéis.
12 anos a viver numa Instituição, invisível ao apelo dos afectos, na espera inútil de ser adoptada. Mas o tempo, esse canalha que destrói ilusões, vai continuar a tecer teias de dor que vão envolvendo cada vez mais o corpo sem asas da criança, passarinho frágil abandonado na gaiola.
O oficial de justiça mordia os lábios e enterrava as unhas nas palmas das mãos, para conter o desespero de não poder gritar:

- Vá lá, apareça apenas um daqueles que tanto falam de amor e liberte esta menina das grades insensíveis e desumanas da vida.

domingo, 16 de junho de 2013

HISTÓRIAS VERDADEIRAS



O CIRCO DA TRISTEZA (1)

         A mãe, ainda jovem no bilhete de identidade, chegou com o seu rosto estriado de rugas da depressão e os lábios murchos pela velhice das lamentações. Estendeu para o oficial de justiça os seus olhos como pedras fundas e sujas do lodo das olheiras e deixou cair as folhas podres das palavras da raiz desdentada das gengivas.
- Venho só avisar que o meu filho é um excelente aluno. Tem 14 anos. Vai terminar o 9.º ano e vou tirá-lo da escola.
O trabalhador da justiça permaneceu em silêncio, para que ela se pudesse explicar.
- O pai nunca quis saber dele. Eu estou doente. Os 246€ que recebo por parte da Segurança Social mal dão para comermos. Portanto, é impossível mantê-lo a estudar.
O oficial encarou as mãos manchadas de lixívia da mulher e respondeu-lhe:
- Mas assim, devido ao absentismo escolar, o seu filho é considerado um jovem em risco e em perigo na sua formação, o que vai dar origem a um processo de promoção e protecção.
A mãe abriu a concha das mãos, para exprimir melhor as palavras com a batuta dos gestos e respondeu:
- Leis estúpidas estas que penalizam as mães e os filhos por serem pobres, devido à riqueza injusta de quem as fez. O que é que prevalece: a lei obrigatória de ir à escola, ou o direito de vivermos numa sociedade justa?
A mulher não esperou pela resposta, se é que a pretendia, e foi-se embora ao encontro do espectáculo da vida.

O oficial de justiça voltou ao seu lugar e como um autómato continuou a esmagar as palavras sob o teclado do computador.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

UMA CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA




         Pacotes de leite vazios, papelão, metais, pedaços de vidro, garrafas, garrafões, latas vazias, filtros de café usados, restos de linhas, botões abandonados e uma extraordinária criatividade e consciência ecológica, fazem parte da exposição de Zenaide Santos Oliveira, que está patente, desde 05/06/2013, na Biblioteca Ruy Gomes da Silva na Chamusca.
            Reciclar, reduzir, reutilizar e reinventar, são temas de uma mensagem única: proteger o ambiente e a vida.
          Porque vivo  o dia-a-dia com esta Mulher, admiro a excelência do seu trabalho e comungo das suas motivações ambientais, elaborei os textos que apresentam a artista e a exposição.

















BIOGRAFIA


Zenaide Maria Lima dos Santos Oliveira, nasceu em 27/05/1974 em Vila Franca do Campo, Ilha de S. Miguel, Açores.
No ano de 2001 concluiu a licenciatura em Ensino Básico – 1.º Ciclo, pela Universidade dos Açores.
No ano lectivo de 2002/2003 iniciou a sua actividade como professora. Actualmente faz parte do Quadro de Zona Pedagógica de Vila Franca do Campo.
A componente ecológica e ambiental foi sempre uma preocupação na sua vida pessoal e profissional.
No ano lectivo de 2009/2010, submeteu à aprovação do Conselho Pedagógico da Escola Básica e Secundária de Vila Franca do Campo o projecto inédito da “Quinta Pedagógica das Palmeiras” que, para além de motivar os alunos para a frequência do ensino e para a aprendizagem, tinha como vertentes principais a Educação para a Cidadania, o Respeito pela Natureza e a Educação Ecológica.
A compostagem foi uma das actividades implementadas, como forma de eliminar os resíduos sólidos domésticos, evitando a sua acumulação em aterros sanitários e usando-os como fertilizantes do terreno onde foi criada uma horta biológica, na qual os alunos se envolveram na experiência de preservar e cuidar dos recursos da terra, semeando, plantando, regando, mondando e colhendo os vegetais e os frutos.
A intervenção ambiental de Zenaide Santos Oliveira viria a tornar-se mais vincada, com  a sua vinda para a Chamusca, em Agosto de 2010, onde ao abrigo de uma licença Parental para Assistência a Filhos, começou a reciclar, reutilizar e reduzir, vidro, cartão, latas, roupas velhas, pacotes de leite vazios, filtros de café, linhas, botões e metais, transformando-os em malas, bolsas, carteiras, cintos, tapetes, quadros e objectos decorativos, envolvendo muitos habitantes da Vila nas suas actividades e a quem agradece o seu empenho e Amizade.
Os seus trabalhos encontram-se já por todo o País e igualmente no estrangeiro, nomeadamente no Brasil, nos Estados Unidos da América, na Polónia e no Canadá. 

Para mais informações sobre as suas obras aceda ao blogue: oluxovemdolixo.blogspot.com


A MULHER QUE EU CANTO


A Mulher que eu canto
tem nas mãos o encantamento
de trabalhar o lixo e o carinho,
com gestos artesanais de ternura,
numa delicada protecção
da Natureza e do Amor.

A Mulher que eu canto,
é uma peça do Universo,
uma estrela de lata,
uma lua de vidro,
um céu de farrapos,
uma floresta de cartão.

A Mulher que eu canto,
recicla o dia-a-dia
com pedaços de vida
e retalhos de paixão.






POLUIÇÃO ATRAVÉS DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

Diariamente são produzidos dois milhões de toneladas de lixo no mundo.
A falta de condições adequadas para acondicionar e tratar os resíduos sólidos, traz graves repercussões em termos ambientais, sociais e no domínio da saúde pública.
O impacto nocivo reflecte-se na contaminação dos solos, subsolos, nos cursos de água, na fauna e na flora, provocando ainda erosões e enchentes.

IDEIAS SIMPLES PARA ATENUAR O PROBLEMA

O primeiro passo é prepararmos e trabalharmos a nossa mente para uma consciência ecológica.
Se não formos possuidores de habilidade manual para reutilizarmos algum do lixo que produzimos diariamente na nossa casa, podemos, no entanto, criar o hábito de fazer a separação dos objectos por géneros e colocá-los nos respectivos depósitos dos ecopontos.
Tratando-se de uma pessoa com alguma criatividade, pense na utilidade que algumas garrafas, latas, pacotes de leite vazios, cartões, papelões e roupas usadas podem ter na qualidade da sua vida e na decoração da sua casa e crie. Trabalhe a sustentabilidade dos desperdícios e vai entender porque razão “nem os trapos são velhos.”
O objectivo primordial de protecção do ambiente está ao alcance das nossas mãos, se através de pequenos gestos reduzirmos, reciclarmos e reutilizarmos o nosso lixo doméstico, dando-lhe uma vida nova, mais atractiva e saudável.

A NATUREZA e os nossos FILHOS agradecem!





quarta-feira, 5 de junho de 2013

"O PESO DAS GORDAS" - FEIRA DO LIVRO DE LISBOA

“O PESO DAS GORDAS – FEIRA DO LIVRO DE LISBOA”

         No próximo dia  08/06, entre as 16:00 e as 17:00 horas, irei estar no Pavilhão A 11 da Feira do Livro de Lisboa, numa Sessão de Autógrafos, da minha obra, “O Peso das Gordas – porque qualquer Mulher é muito mais do que um corpo.”
       Depois de várias outras sessões de autógrafos e de uma entrevista para um Programa da TVI, o livro e o autor continuam o seu caminho literário e humanizador, lançando à sociedade uma pergunta fundamental:
      QUANTO PESA O PRECONCEITO HUMANO?



                     
 http://www.tvi.iol.pt/programa/4140/videos/133829/video/13784647/1                               

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A LIBERDADE DA MEMÓRIA





      A convite da Biblioteca Ruy Gomes da Silva, da Chamusca, estive hoje presente no evento "Poesia e Liberdade", inserido nas comemorações do dia 25 de Abril.


     Como entendo que o Homem só é verdadeiramente livre no pensamento e na sua memória, apresentei um texto de prosa poética que reflecte o espaço real da minha infância, adolescência e juventude, perseguidas por um tempo adulto, imaturo, cruel, autoritário e opressivo, de uma sociedade sem remorsos de torturar pétala a pétala os cravos da liberdade.





A Liberdade da Memória

Nasci no dia 06/01/1963, na Vila da Chamusca, no leito do Ribatejo. A minha infância, adolescência e juventude foram como que pintadas numas pinceladas de natureza: a arquitectura de traços simples e tons brancos, harmonizava-se com as aguarelas verdes e castanhas da charneca e da lezíria e, no centro de tudo, a unir todas as coisas, como a profundidade de um abraço a irrigar as raízes da vida, o coração do Tejo.
      A Vila era um lugar de silêncio e tranquilidade que se tornou quase surdo, quando as pessoas e as suas palavras emigraram nos comboios, ou nas camionetas e carros dos “passadores”, a salto para França e outros países da Europa, para livres e condignamente construírem os seus ninhos familiares, que na sua Terra só as aves, como as cegonhas, tinham a liberdade de construir, nos eucaliptos situados a norte da Chamusca e que bordejavam a Estrada Nacional 118.
    Surdez que se tornou mais audível, quando os homens jovens foram arrancados da Terra, despejados sobre os convés dos navios e depois, de olhos salgados de mar e de lágrimas, foram plantados nas terras inóspitas e inférteis de África, onde apenas a guerra e a morte subsistiam.
        Entretanto, no dia 25 de Abril de 1974, deu-se a Revolução e, como uma cheia de liberdade, galgou o Tapadão, embebeu-se pelos campos e veio beijar os pés da Terra Branca.
     Como cegonhas, os emigrantes num gesto de asa esvoaçaram para a Chamusca onde voltaram a aninhar-se nos seus lares.
    Os militares regressaram felizes, com a esperança viva nos corpos desarmados.
         O sol brilhava tão intensamente, como um coração a acender de sangue as candeias da alma, e tudo parecia tão perfeito como a paisagem vista dos olhos do Mirante.
          Hoje, neste profundo labirinto humano, onde o passado, o presente e o futuro se confundem, se repetem e se perdem, como cegos tacteando sombras sem saída, só os pormenores e sentimentos da infância, adolescência e juventude vivem livres na minha memória, o único espaço que ainda resiste à traição do tempo e à ditadura de um mundo sem liberdade.

terça-feira, 2 de abril de 2013

LIVRO "UM MENINO FELIZ NA CHAMUSCA" EM EXPOSIÇÃO




            Desde o passado dia 19/03/2013 que os desenhos originais do livro, bem assim como alguns excertos do mesmo, se encontram em exposição na Biblioteca Municipal Ruy Gomes da Silva, na Chamusca.
            O patrocínio do livro por parte da Câmara Municipal da Chamusca, o seu lançamento e exposição, provam o reconhecimento da qualidade da obra, mas também evidenciam a sensibilidade de quem coordena a cultura neste Concelho e a Biblioteca em particular, dando aos autores a atenção que merecem e contribuindo conjuntamente para a educação e formação humana.
            A Biblioteca Municipal Ruy Gomes da Silva é já, sem qualquer dúvida, uma referência a nível nacional pela sua dinamização e crescente envolvimento social. Por isso só posso sentir-me orgulhoso e agradecido por poder contribuir com o meu trabalho para a construção de uma sociedade mais culta, educada, e com valores mais ricos de humanidade.



    Apresento, a seguir, alguns dos desenhos do livro da autoria de Zenaide Santos Oliveira




terça-feira, 19 de março de 2013

ENTREVISTA AO BLOGUE "FLAMES"


    Esta foi a entrevista que dei a um importante blogue português sobre literatura, cinema e espectáculos, de nome "FLAMES", e que é dinamizado por duas psicólogas de Coimbra (Roberta e Mariana).

http://flamesmr.blogspot.pt/2013/03/entrevista-ao-autor-carlos-oliveira.html

SeGUNDA-FEIRA, 18 DE MARÇO DE 2013

  

Entrevista ao autor Carlos Santos Oliveira


Carlos Santos Oliveira






Carlos Santos Oliveira nasceu na Chamusca, no Ribatejo, onde durante alguns anos exerceu a profissão de jornalista.  Desenvolveu ainda actividades como animador de rádio e actor.
Viveu no Brasil, país onde frequentou o curso de Línguas e Literatura Moderna e foi membro do CIP (Centro de Imigrantes Portugueses), que realizava eventos de divulgação da cultura portuguesa.
Bacharel em Comunicação, foi professor nos Açores e é actualmente oficial de justiça. Tem inúmeros textos publicados em vários jornais e alguns dos seus poemas fazem parte de colectâneas de poesia.
Em 2008 publicou o romance É Tão Fácil Morrer, em 2009 o livro de poesia Redes e o livro de relatos Sentenças da Vida. No ano de 2010 publicou o livro infanto-juvenil A Lição do Rinoceronte e em 2011 o livro de estórias Os Filhos Não São Maus. Os seus últimos dois livros intitulam-se O Peso das Gordas... e Um Menino Feliz na Chamusca.
  
Qual é a sua nacionalidade: Portuguesa
O seu Filme favorito: “O Crepúsculo dos Deuses”, realizado por Billy Wilder.
O seu Livro favorito: “O Sol dos Scortas” – Laurent Gaudé.
O seu Anime favorito: Não tenho
O seu Manga favorito: Não tenho 
O seu Evento/Espectáculo de música/Programa de Entretenimento favorito: Heróis do Mar, Pólo Norte, Rui Veloso.
A sua Série de televisão favorita: “Ruca”
Muitos dos seus livros misturam vidas reais, duras e difíceis, com uma escrita poética. À partida poderia parecer uma mistura “estranha”, no entanto nós gostámos imenso. Fá-lo com algum propósito específico de “aligeirar” de alguma forma o modo como o leitor se irá sentir, ou tem mais a ver com o seu estilo de escrita pessoal?
Tenho 7 livros publicados. Apenas um deles é de poesia, “Redes”. Mas há um outro com alguns laivos de prosa poética, penso que é a esse que se referem, “Sentenças da Vida”. Por se tratar de um livro descritivo de factos reais vividos num Tribunal de Família e Menores, envolvendo, sobretudo, crianças maltratadas, houve, da minha parte, como que um instinto de as proteger e de as abraçar com profunda ternura. A necessidade e o desejo de partilhar esse Amor com elas resultou numa obra com uma mensagem muito sensitiva.
Daqui se depreende que jamais será meu propósito “aligeirar” o que escrevo, porque entre os leitores estão muitos daqueles que maltratam os filhos e as mulheres. É preciso desmascará-los e, se possível, fazê-los reflectir e levá-los a parar com a violência. 

Ainda não lemos o livro “O Peso das Gordas – porque qualquer Mulher é muito mais do que um corpo”. Parece-nos um tema muito relevante e actual. O que nos pode dizer sobre ele?
Esse livro afirma que as mulheres se devem amar e que merecem ser amadas. Nenhuma mulher pode ser valorizada ou ridicularizada apenas devido ao aspecto do seu corpo. É claro que a auto estima é fundamental e que nenhuma mulher gosta de ser feia ou ter um corpo mal feito, contudo penso que as mulheres se estão a deixar instrumentalizar pelo desejo sexual dos homens e pelo preconceito social. No fundo pretende-se que elas sejam apenas um corpo. A inteligência, a sensibilidade, a afectividade e a sua função primordial como mães deixa de ter qualquer importância ou significado, desde que elas não tenham as medidas alinhadas pelos padrões de beleza social. Isto sim é que é ridículo! As mulheres entrarem em clínicas de fabrico em série, para saírem com o mesmo código de barras e serem “vendáveis” no mercado comercial da vaidade
. É evidente que a indústria estética e das “gordas” é uma das mais rentáveis no momento, por isso convém continuar a lançar o medo pânico sobre as mulheres e fazê-las acreditar que têm sempre uns quilos a mais e que isso faz delas umas “antas”, “vacas” ou “baleias”.
O livro é uma novela, um testemunho e tem também referências sobre a história do cinema, da pintura e da evolução e “involução” da mentalidade social relativamente à mulher.

Aborda as dietas malucas, a loucura das operações de redução de estômago, mas também o sucesso que se pode conseguir, para perder peso, só com a auto estima, o exercício físico e uma alimentação adequada. Mais uma vez, à semelhança de outras obras que publiquei, o livro e os personagens são praticamente decalcados da realidade. A ficção é só o quanto basta para temperar o texto. A grande pergunta do livro é saber se as mulheres pretendem ser humanas e lutar pelos seus direitos, ou preferem ser usadas, abusadas, discriminadas e singelas bonequinhas de estimação?

Sabemos que, para si, o amor é um sentimento em extinção. O que o leva a proferir tais palavras?  
Trabalho há cerca de 11 anos em Tribunais de Família e Menores, para além de toda a minha experiência social, e o que vejo é desolador. O egoísmo tem vindo num crescendo. As pessoas confundem amor e sexo, ou vice-versa, numa trapalhada. Casam-se por ser tradicional e descasam-se por estar na moda. Fazem filhos dos quais depois se descartam rapidamente como se eles fossem vulgares preservativos. Vivem de aparências e o materialismo é o seu maior objectivo, por isso dar uns murros nas mulheres e uns pontapés nos filhos mais não é do que a manifestação violenta dessa falta de afectos. Penso que as pessoas não têm ideia do número de crianças abandonadas e maltratadas que são uma sobrelotação para os tribunais. Uma vergonha e uma desgraça social. Ultimamente surgiu uma nova modalidade desta tragédia: os pais a assassinarem os próprios filhos. Felizmente que ainda existem muitas pessoas que praticam de facto o Amor. Tenho esperança que elas possam fazer sobreviver a cultura da afectividade.

O amor é, também, um dos temas fundamentais de todos os seus livros. Consegue transmitir-nos a importância do amor de uma forma não “lamechas”... antes pelo contrário. Não é fácil, a nosso ver, falar de certas temáticas sem cair, por momentos, no campo do ridículo. Como o faz? 

Talvez devido a uma entrevista que dei a um programa de televisão, a produção tenha tentado criar um pouco de “espectáculo” à volta do meu livro “O Peso das Gordas – porque qualquer Mulher é muito mais do que um corpo”, que serviria mais os interesses de captação de audiências. Contudo, não me deixei conduzir nesse sentido e penso que defendi a obra e a Mulher de uma forma muito digna, e não deixei que fossem ridicularizadas. Trata-se de um livro de Amor dedicado às mulheres e só quem não o leu pode interpretá-lo de outra forma. Completando a vossa pergunta, devo referir que todos os meus livros reflectem e apelam ao que acho ser fundamental a qualquer ser humano e à sociedade: o Amor, a Amizade e a Família. Penso que não é necessário embelezar as palavras com pétalas, porque os sentimentos também têm espinhos e ferem a alma. Não se pode recear falar das imperfeições do Amor, porque isso seria omitir e ridicularizar a verdade. Quem ama ou já amou, sabe bem que o prazer e o sofrimento são duas faces da nossa vida amorosa. Por esse motivo, para mim o Amor não é uma ficção.

O seu trabalho é muito importante pois tem, sem dúvida, um cariz muito interventivo e pode, realmente, fazer a diferença. O que o motiva?
Sou, sobretudo, um escritor de intervenção social. A minha escrita tem muito pouco de ficção. Os personagens dos meus livros sou eu próprio e as pessoas com quem me vou cruzando na vida. O que me motiva a alinhavar mensagens é o facto de através da escrita poder dar a palavra e partilhar a vida dessas pessoas e também chocar os leitores com a realidade e levá-los a reflectir sobre o seu papel social. Tentar alertá-los para o facto da Família, a Amizade e o Amor, serem o triângulo de sentimentos fundamentais para a nossa realização humana. Fico feliz por cada vez receber mais retorno às minhas mensagens, quer através do facebook, do e-mail, da compra dos livros e da abordagem directa. As pessoas procuram-me, não só para me darem os parabéns pela forma corajosa como abordo temas que a sociedade tenta escamotear, mas também para me dizerem que vivem de uma forma honesta e com Amor. No meio desta troca de mensagens também existem muitos pedidos de auxílio no campo jurídico e social. Isso dá-me imenso orgulho porque me permite, de facto, mais do que escritor ser um voluntário que serve o próximo.

Quais são, a seu ver, as problemáticas mais importantes e relevantes que devem ser objecto de maior atenção por parte do nosso governo? 
Para responder a esta pergunta gostaria de esclarecer que sou apartidário. Que já fui por mais do que uma vez convidado para fazer parte de listas eleitorais e recusei. Prezo muito a minha liberdade de pensamento e a paz da minha consciência. Os políticos, em geral, têm uma gula insaciável pelo poder e um desejo imenso de se lambuzarem no dinheiro. A maior parte deles são uns incompetentes que encontraram neste meio o seu ideal, pois não são responsabilizados pelas suas asneiras e crimes graves e depois de terminados os seus mandatos, ainda são agraciados com cargos de favor em administrações de empresas públicas e privadas, como moeda de troca pela sua militância e favorecimentos em cadeia. Quanto a esta espécie de (des)governo que temos, penso que enquanto os valores económicos esmagarem os direitos humanos, jamais será possível existir justiça social. As pessoas não podem ser unicamente números de identificação fiscal. Se a falta de solidariedade e sensibilidade política para com elas se mantiver, isto dará origem a uma desumanização de consequências terríveis.
O nosso anterior entrevistado, a escritora Anita Carapinheiro, teve como desafio deixar uma pergunta ao próximo autor sem saber de quem se tratava (Pode ver a entrevista aqui: (http://www.flamesmr.blogspot.pt/2013/03/entrevista-autores-anita-carapinheiro.html). A pergunta foi a seguinte: "Qual a sua fonte de inspiração?"
É simplesmente viver a vida!
Se pudesse, o que é que perguntaria ao próximo autor ou autora que iremos entrevistar?
Seria capaz de viver sem a escrita?

Obrigada ao autor pelas respostas, pela disponibilidade e, sobretudo, pelas suas palavras!